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O PT E AS ELEIÇÕES EM CURITIBA


A possível aliança entre o PDT e o PT para a disputa da prefeitura de Curitiba não garante, como querem fazer crer alguns expoentes do chamado “Campo Majoritário” do PT, o apoio incondicional de DILMA ROUSSEFF, LULA e do PT NACIONAL ao ex-deputado federal GUSTAVO FRUET. Aliás, como se sabe, sequer a coesão do PT curitibano em torno da candidatura de GUSTAVO FRUET pode ser esperada.
É sob a ótica das questões nacionais – leiam-se eleições presidenciais de 2014 – que o assunto “FRUET/PT” deve ser tratado e compreendido. Isto porque, são os resultados das eleições municipais que vão proporcionar à presidente DILMA – ou não – as condições ideais para enfrentar a disputa à reeleição. Sob esse prisma, o PSB e o seu presidente nacional, o Governador de Pernambuco, EDUARDO CAMPOS, a cada dia ganham um papel de maior destaque nas articulações e estratégias políticas para as eleições de 2012. Não é segredo para ninguém a excelente relação que EDUARDO CAMPOS e LULA mantêm. Nesse sentido, os trabalhos de bastidores que o ex-presidente tem feito nos últimos meses, e com o consentimento de DILMA, para formar um pacto com o socialista rumo a 2014, já ganham as colunas políticas de todo o país.
É consenso entre os petistas do alto escalão que EDUARDO CAMPOS não pode ficar “solto” no processo eleitoral que se aproxima. Por isso, o ex-presidente da República está conduzindo pessoalmente as negociações com o socialista para que o PSB declare o quanto antes apoio à candidatura do ex-ministro HADDAD em São Paulo. Decisão mesmo, o Governador de Pernambuco promete apenas para junho, durante a convenção partidária. Desde logo, entretanto, já garantiu a LULA que a seção paulistana do partido não apoiará a candidatura de JOSÉ SERRA, embora o PSB paulista faça parte da administração de ALCKMIN.
As negociações prosseguem e para ganhar a adesão a HADDAD, o PT avalia a possibilidade de apoiar candidatos do PSB em diversos municípios considerados estratégicos, como Campinas (SP), Mossoró (RN) e Duque de Caxias (RJ), bem como em importantes cidades paulistas como Franca, Taubaté, Taboão da Serra e Itanhaém. Igualmente, o PSB espera garantir a vaga de vice do PT em três municípios paulistas: Santo André, Diadema e Mauá. Além disso, o nome de EDUARDO CAMPOS já é lembrado publicamente por petistas de peso, como JAQUES WAGNER, para ocupar a vice de DILMA em 2014.
Segundo o presidente municipal do PT em São Paulo, ANTONIO DONATO, coordenador da campanha de HADDAD, “há vontade de ter um entendimento estratégico, que passa pela visão de País. Eles (PSB) colocaram uma lista de cidades. Não é uma imposição. É um esforço, por isso precisa de tempo até junho”, disse.
Segundo reportagem publicada pelo jornal o Estado de São Paulo em 27/03, no “Recife e em Fortaleza, capitais governadas pelo PT, o partido cederia a vaga de vice aos socialistas. Os petistas estudam, também, abrir mão de candidatura própria em João Pessoa e pedem que o PSB apoie sua candidatura em Macapá. As negociações no País são conduzidas por Campos e pelo presidente nacional do PT, Rui Falcão. Um mapeamento mais detalhado será feito nos próximos dias pelo vice-presidente do PSB, Roberto Amaral, e pelo secretário nacional de Organização do PT, Paulo Frateschi.”
Como se vê, há um grande esforço sendo conduzido por próceres dos dois partidos para que PT e PSB possam consolidar uma grande aliança em 2012, com foco em 2014.
Será que em Curitiba, o fato de LUCIANO DUCCI (PSB) ser apoiado pelo Governador BETO RICHA (PSDB) representa um obstáculo às composições que estão em curso e visam fortalecer a candidatura à reeleição da Presidente DILMA? Ao que parece não. A confirmar tal impressão, observa-se que o PT de Belo Horizonte já confirmou o apoio à reeleição de MÁRCIO LACERDA (PSB), o qual também é apoiado por AÉCIO NEVES (PSDB).
Por tudo isso, imaginar que a campanha em Curitiba seguirá caminhos próprios, descolada das questões nacionais, é, no mínimo, imprudência política.
Se EDUARDO CAMPOS ceder aos encantos do amigo LULA e realmente vier a apoiar a candidatura de HADDAD à prefeitura paulistana, o candidato do PDT em Curitiba, GUSTAVO FRUET – ainda que venha a contar com o apoio formal do diretório municipal do PT –, poderá esquecer qualquer promessa de participação mais efetiva do entourage de DILMA, LULA e do PT NACIONAL em sua campanha.
Em suma, o PT de Curitiba, além do tempo de TV, está a prometer algo que não pode entregar a GUSTAVO FRUET. Enquanto isso, a amizade de LULA e EDUARDO CAMPOS pode ajudar – ou pelo menos não atrapalhar – as pretensões de LUCIANO DUCCI.
Vamos aguardar os próximos capítulos...
Clóvis Augusto Veiga da Costa
 Advogado e Analista Político Amador




Roteiro sentimental de um leitor de Jorge Amado 
por Antônio Torres



(Para Myriam Fraga, a bela poeta que dirige a Fundação Casa de Jorge Amado, no Pelourinho, em Salvador da Bahia).
Rio de Janeiro, 23 de julho de 2006.

Quando, na tarde desse domingo, uma voz ao telefone disse de quem se tratava, o seu ouvinte viu-se de volta a uma cidade de luzes verdes, cercada de laranjais. E aos sonhos dourados de uma juventude que “os anos não [lhe] trazem mais”. Ele, o senhor que em Copacabana atendia, tão surpreso quanto emocionado, a uma ligação de São Gonçalo dos Campos, onde nunca pusera os pés, tentou reconstituir os traços fisionômicos do dono da voz, sem êxito. Pelo seguinte motivo: lá se iam quase meio século desde que vira o seu rosto pela última vez. Mas como esquecer a figura de um sujeito esquisitão que apareceu em Alagoinhas, a festeira terra da laranja, da Micareta e das folias juninas, vestido como quem ia à missa?
À maneira de Frederico Fellini, amarcord. Eu me recordo. Era um dia qualquer, sem nenhuma solenidade religiosa ou social programada. Nenhuma posse de um prefeito ou um evento no Lyons e no Rotary, uma noite de gala nos seus clubes dançantes, coisas assim, que exigiam apuro nos trajes. Com toda probabilidade, ele, o tal transeunte enfatiotado, havia desembarcado na Estação da Leste, ou seja, da Viação Férrea Federal do Leste Brasileiro. Devia até ter chegado no “Marta Rocha”, o trem que ganhara esse nome, na boca do povo, por ser o mais bonito de todos que circulavam de Salvador para Alagoinhas e vice-versa. Seja lá qual tenha sido o meio de transporte que o trouxera, sua presença só iria ser notada no momento em que ele atravessou a bela praça J. J. Seabra – a das árvores artisticamente podadas em forma de pássaros -, em uma hora de pouco movimento, sem cumprimentar ninguém nem ser cumprimentado.
Seria aquele estranho personagem um caixeiro-viajante? - perguntavam-se os hoteleiros, cada qual ansiando, secretamente, por merecer a preferência da hospedagem. Não demorou muito para todos o perderem de vista, ao dobrar de uma esquina. Também logo se saberia que ele vinha do Rio, de mala e cuia, para passar a morar ali, junto a seus familiares, originários de Sergipe.
Isso dava asas às confabulações: por que o distinto cavalheiro trocava a efervescência da capital federal pela vida pacata de uma cidade do interior baiano? Coisa boa não devia ter arrumado no Rio de Janeiro. Vai ver era um comunista, em busca de refúgio num lugar que a polícia nem sonhasse onde ficava.
Mas não. Naquele ano de 1958, em plena era JK, respirávamos os bons ares da liberdade política. Tivesse ou não um passado nebuloso, o homem misterioso que, ao chegar, provocara interrogações, tinha em seu destino um emprego no único ginásio da cidade. Era um professor de Geografia, que surpreenderia os seus alunos pela intimidade com que falava de serras como a do Mar, da Mantiqueira, dos Órgãos, e do Pico da Bandeira. Aos poucos, revelaria outros domínios, que abrangiam da Matemática à Literatura. Cada vez mais surpreendente, esse professor! Não fiquei lhe devendo apenas a descoberta de rios, lagos, mares, continentes, capitais e países do mundo. Nem lhe sou grato somente pelo seu esforço para que eu não fosse derrubado, na prova final, por equações e figuras geométricas. Mais que tudo, devo-lhe a minha formação de leitor, ou, melhor dizendo, a minha descoberta da modernidade literária brasileira. No que ele se empenhou com um prazer inenarrável, fora das salas de aula. Agora, por trás da voz que vinha de longe, vejo-o trazendo Jorge Amado para o centro das minhas atenções. 
Pois sim. Enquanto falava ao telefone, motivado por rememorações que lhe tenho feito na imprensa, como o responsável pela minha iniciação à obra de Jorge Amado - e para dizer que agora está morando em São Gonçalo dos Campos, e também que, mesmo depois de completar 50 anos de magistério, continua lecionando Matemática na pós-graduação da Universidade Estadual de Feira de Santana -, o professor doutor Carloman Carlos Borges fez mais do que dar sinais de vida. Aquele que um dia me ajudou a escrever um discurso, parecia ter adivinhado que este seu ex-aluno estava enrascado de novo. Por ter de escrever outro e não saber como começar.
Se lhe tivesse dito isso, o mestre de outros tempos certamente teria me apontado o mais antigo dos caminhos: “Comece pelo princípio”, diria ele, sabiamente. Outra, porém, foi a sua lição. O matemático, hoje também psicanalista e acima de tudo homem de letras Carloman Carlos Borges, encerrou aquela conversa telefônica recitando uns versos de T. S. Eliott, que podem ter alguma pertinência neste tributo ao imortal autor de A morte e a morte de Quincas Berro Dágua:
Morremos com os mortos.
Eles partem e com eles nos levam.
Nascemos com os mortos.
Eles retornam e consigo nos trazem.
O que retornou, e vivamente, na tarde de 23 de julho deste 2006, foi a memória do dia em que li Jorge Amado pela primeira vez. “Para começar a gostar da obra dele, leia este”, disse-me o professor Carloman, ao me emprestar o Mar morto, concedendo-me o prazo de uma semana para devolvê-lo. “Quando se começa a ler Jorge Amado, não se pára mais”, ele acrescentou. Dito e feito. Sim, ali estava um romancista encantador, cujo poder de sedução se exercia já na primeira frase de um breve prólogo do seu romance: “Agora eu quero contar as histórias da beira do cais da Bahia”. E, por começar deste jeito, em tom de conversa pessoal, íntima, de pé de ouvido, ele foi me levando em ondas nas quais eu me envolvia, entre a dor das labutas e sofrimentos dos seus marinheiros, e o prazer da leitura de um texto amoroso, memorável. No segundo parágrafo daquela mesma página inicial, este leitor encontrava-se completamente enfeitiçado pelo convite à navegação em frente.
“Vinde ouvir estas histórias e estas canções. Vinde ouvir a história de Guma e Lívia que é a história da vida e do amor no mar. E se ela não vos parecer bela, a culpa não é dos homens rudes que a narram. É que a ouvistes da boca de um homem da terra, e, dificilmente, um homem da terra entende o coração dos marinheiros. Mesmo quando esse homem ama essas histórias e essas canções e vai às festas de dona Janaína, mesmo assim ele não conhece todos os segredos do mar. Pois o mar é mistério que nem os velhos marinheiros entendem”.
Imaginem o encantamento que isso causou em quem nasceu num lugar onde nem rio havia. Nunca dantes tinha lido nada, em prosa, que me provocasse tamanho arrebatamento. O texto de Jorge Amado parecia uma versão contemporânea da poesia de Castro Alves, o que até então eu queria ser, quando crescesse – até porque o nosso mais querido vate era bonito como um corno e dava muita sorte com as mulheres.
Mas agora outro imenso valor se alevantava diante dos meus olhos. Alguém que escrevia num idioma do nosso tempo, sem os floreios gongóricos tão ao gosto do romantismo, portanto acessível ao mais comum dos mortais. E o que fazia (e faz) o encanto desse idioma era (e é) a sua humaníssima fala baiana, tão cheia de musicalidade, lirismo, malemolência, tempero, sensualidade. E que dizer da sua vasta galeria de tipos humanos?
Neste particular, Jorge Amado parece contradizer Scott Fitzgerald, o laureado ficcionista norte-americano das décadas de 20 e 30 do século passado, que iniciou um conto (O moço rico) assim: “Começa-se com um indivíduo e, antes de se dar conta disso, descobre-se que se criou um tipo; começa-se com um tipo e descobre-se que não se criou coisa nenhuma”. Além de todos os seus predicados, Jorge Amado tinha um dom especial para criar personagens – e tipificá-los. Fossem eles marinheiros, vagabundos, prostitutas, retirantes, pastores da noite, coronéis truculentos, meninos de rua, ou sem-teto (diríamos hoje), que, como sabemos, vieram a se multiplicar nas cidades brasileiras do século 21, de forma preocupante, numa franca exposição e denúncia do quadro social deplorável que estamos vivendo.
Numa coisa ele podia dar razão a Fitzgerald, um escritor que floresceu em outro meio, outra cultura, outros patamares sociais e econômicos, enfim, na realidade do capitalismo já avançado dos Estados Unidos da América, após a Primeira Guerra Mundial. Refiro-me ao Fitzgerald que dizia: “Ação é personagem”. Ele, o São Jorge dos Ilhéus e da Baía de Todos os Santos, sempre soube pôr em movimento personagens de carne e osso, sentimento e consciência, instinto e razão. E muitos outros que se enquadram em outros perfis.
“Poucos ficcionistas dominaram tão completamente quanto Jorge Amado a arte de inventar gente” – escreveu Augusto Nunes, diretor de jornalismo do Jornal do Brasil, no Caderno Idéias de 5 de agosto de 2006. Ele prossegue: “Os personagens do escritor baiano, inspiradores de ilustrações magníficas, transformaram o leitor em diretor de elenco. Além de nome, têm cores e cheiro. Têm até corpo e rosto. Às vezes, existem. Gabriela, por exemplo, tem cor de canela, cheiro de cravo e virou gente com o nome de Sônia Braga. A fusão começou na novela da TV Globo. Consumou-se no filme de Bruno Barreto...”
Dir-se-ia ainda que poucos ficcionistas brasileiros dominaram tão bem a arte de escrever diálogos. Os criados por Jorge Amado são de uma naturalidade espantosa, dando-nos a impressão de que ele tinha os ouvidos afinadíssimos para a linguagem coloquial, o que o distinguia da maioria dos escritores brasileiros surgidos antes dele, e mesmo de muitos da sua própria geração. Nos seus romances, narração e diálogo têm marcas de origem e carimbo de autenticidade nacional. Ao ler um deles pela primeira vez (o já mencionado Mar Morto), a minha impressão foi a de que, finalmente, eu havia descoberto um autor nosso, ali à beira do litoral, a apenas 108 quilômetros de distância de onde eu o lia, que rompera com os modos e usos do fazer literário lusitano. Tanto quanto com a retórica barroca tropical.
Costuma-se dividir a sua literatura em duas fases: na primeira, ela é engajada, de marcante compromisso sócio-político, com prioridades regionalistas e nos valores do proletariado negro da cidade de Salvador. Na segunda, a partir da publicação de Gabriela, Cravo e Canela, em 1958, suas preocupações politicamente revolucionárias desaparecem, dando lugar a um comprometimento com a cultura popular, com ênfase na brasilidade negra e mestiça, em oposição à moral burguesa.
Verbetes reducionistas assim não estariam obliterando o repertório multifacetado, multirracial e multicultural da sua obra?
Não faltou quem o acusasse (notadamente na crítica universitária, digamos, chique, do eixo Rio - São Paulo), de explorar os aspectos pitorescos da vida baiana, mais predisposto a retratar estereótipos do que em ilustrar as verdadeiras causas e conseqüências das tensões sociais. Em contraposição à severidade de tais interpretações da sua obra, e refletindo a recepção dela pelos seus leitores, Augusto Nunes, em seu já citado artigo no Jornal do Brasil, traz à luz o que até um cego, lendo em braile, enxergará: “Na metade do século passado, a galeria de tipos inesquecíveis já informava a multidões de brasileiros que leitura pode ser puro prazer. O caso de amor de Jorge Amado e sua gente não foi interrompido pela morte. A homenagem da festa em Paraty [acontecida no mês de agosto de 2006] permite acreditar que nunca será”.
Bem, muito do que foi exposto nestas linhas é público e notório. Agora, tratemos de voltar ao princípio, para retomar o fio da minha meada.
Alagoinhas, Bahia, 1958.
Em êxtase, passei duas noites em claro, para, ao amanhecer de um dia, salvar a estrela matutina:
Estrela matutina. No cais o velho Francisco balança a cabeça. Uma vez, quando fez o que nenhum mestre de saveiro faria, ele viu Iemanjá, a dona do mar. E não é ela quem vai agora de pé no Paquete Voador? Não é ela? É ela, sim. É Iemanjá quem vai ali. E o velho Francisco grita para os outros no cais:
- Vejam! Vejam! É Janaína.
Olharam e viram. Dona Dulce olhou também da janela da escola. Viu uma mulher forte que lutava. A luta era seu milagre. Começava a se realizar. No cais os marítimos viam Iemanjá, a dos cinco nomes. O velho Francisco gritava, era a segunda vez que ele a via.
Assim contam na beira do cais.
Fim do Mar Morto.
O professor Carloman iria ficar surpreso com a devolução tão rápida do livro que ele me emprestou. E logo passaria a um segundo empréstimo: Capitães da areia, também lido sem pestanejar e devolvido num piscar de olhos. E, com os devidos agradecimentos, o dispensei de me passar outro, pois, ao ver que a única livraria da cidade (chamava-se São Jorge) tinha todos, ou quase todos os livros de Jorge Amado, até o que fora publicado naquele ano (Gabriela Cravo e Canela). Então criei coragem e pedi crédito ao seu proprietário, um amável senhor chamado Teófilo Maciel. Meu desejo serviu-me de fiador. E, no ato, me tornei o feliz proprietário de uma imensa livraiada, carregada em duas viagens - e a ser paga em suaves prestações, tão a perder de vista que o primeiro pagamento só foi feito mais de três meses depois, quando voltei das férias escolares.
Todos aqueles livros foram lidos numa rede de uma casa de roça, lá no Junco, digo, Sátiro Dias, a quinze léguas de distância de Alagoinhas. Ainda ouço ao longe a voz da minha mãe, dona Durvalice, a mostrar-se preocupada com a minha aparente inatividade, pois eu parecia estar ali apenas para ler, ler, ler Jorge Amado sem parar, dia e noite, enquanto não era vencido pelo sono, levantando-me da rede somente de vez em quando, para atender a necessidades incontornáveis, comer, beber água (e as outras decorrentes dessas), ou, muito mais de vez em quando ainda, para ir prosear com João Escrivão na coletoria do lugar, por este simples motivo: ele conhecia, de cor e salteado, todas as histórias que eu estava lendo. E aí trocávamos figurinhas – as figuras de Jorge Amado.
A bem da verdade, minha mãe sempre fora uma incentivadora da leitura. E olhem que ela pertencia a uma geração de mulheres da roça, cujos pais as proibiam de estudar, para não aprenderem a escrever cartas aos pretendentes a um namoro, e sabe-se lá o que mais, imaginavam eles, os senhores que as geraram. Ainda assim, dona Durvalice, graças às suas artimanhas, teve aulas particulares, clandestinamente, com um professor chamado Laudelino Mendonça, o “Pai Lau”, que veio a dar nome a uma rua de Sátiro Dias.
Ela, aquela menina Durvalice, que ao se tornar uma mocinha me traria ao mundo, pagava essas aulas em trabalho, numa plantaçãozinha de fumo que o professor Laudelino tinha, num pasto ao fundo da casa de um certo senhor chamado Adelino, que viria a ser o meu avô. E, também às escondidas, com a ajuda da luz da lua ou de um candeeiro, aquela menina chamada Durvalice sacrificou-se em silêncio para um dia poder ensinar os filhos a ler, antes que eles fossem para a escola.
Minha mãe me contou isso recentemente, como se erguesse um troféu guardado em segredo por toda uma vida, e que agora lhe ergo, lembrando-me do dia em que ela me mostrou um abêcê e me disse os nomes de todas aquelas letras, sem as quais eu não estaria aqui, para contar esta história.
Por que então ela se preocupava, ao ver o seu filho mais velho a ler Jorge Amado, o tempo todo? Ainda ouço a sua voz ao longe, a dizer-me:
- Menino, vou lhe dar um conselho. Leia só de dia. Lendo tanto de noite, com essa luz fraquinha de candeeiro, logo, logo você vai ficar ruim das vistas.
Felizmente seus temores não se confirmaram. Ler Jorge Amado, e compulsivamente, à tênue luz de um candeeiro, não causou danos aos meus olhos.
Houve outros, porém. À minha reputação, sob o ponto de vista religioso, pronto a apontar um cordeiro de Deus que poderia estar se desviando do rebanho. Foi no regresso ao Junco (digo, Sátiro Dias), de um homem que antes eu nunca tinha visto por lá. Era um filho daquela terra que a ela regressava coberto de glórias, por ter participado da Segunda Guerra Mundial. Reformado como tenente da Marinha, ele vinha a ser meu primo em segundo grau. Recordo-o a adentrar a igreja, inesperadamente, na hora da missa, chamando a atenção de todos não só pelo seu porte musculoso, mas, principalmente, por apresentar-se em uniforme de gala, cheio de medalhas no peito. E por ali ficou bestando durante uns tempos, a beber cerveja, a jogar dama, a contar suas proezas nos mares, sem, no entanto, perder a sua empertigada postura monumental, diante da qual até minha mãe batia-lhe continências:
- Mô fio, por que você não vai para a Marinha? Vá perguntar ao primo Tenente como é que se faz para entrar lá.
Fui. E foi fácil encontrá-lo, no seu posto de comando: a venda de um bom homem chamado Antônio Lopes, onde o nosso herói combatia à sombra, derrubando uma garrafa atrás da outra. Conversa vai, cerveja vem, toco no assunto Escola de Aprendizes de Marinheiros. Interessou-se. E quis saber do meu desempenho nas atividades físicas. Respondi-lhe que era mais chegado à leitura do que aos exercícios. Também se mostrou interessado em saber o que eu gostava de ler. Contei-lhe.
Resultado: delação. Conseqüência: inquérito familiar. Quer dizer que estes livros que você anda lendo são de um comunista? E dos mais descarados, conforme o Tenente garante, jurando por essa luz que nos alumia?
Com a boca cheia de autoridade, não necessariamente literária, ele, o glorificado Tenente, havia garantido mais: que Jorge Amado, além de não ter fé em Deus, como todos os comunistas, era um despudorado, que enchia as suas páginas de palavrões cabeludos, de fazer corar até os mais safados dos adultos. Xibio pra lá, embocetar pra cá... E com certeza nunca tinha sido visto na missa. A religião dele era o candomblé, cruz, credo! Em resumo: eu estava indo por um mau caminho, seguindo um mau exemplo. Só restou à minha mãe me botar contra a parede: aqueles livros estavam mesmo me afastando das leis de Deus?
Naquele momento eu tinha o ABC de Castro Alves nas mãos. Pensei que a única coisa que podia fazer em minha própria defesa era ler um trecho daquele livro para ela, que um dia havia se orgulhado, até às lágrimas, ao ver e ouvir aquele mesmo filho recitar em praça pública, diante de uma multidão: Auriverde pendão da minha terra/ Que a brisa do Brasil beija e balança/ Estandarte que a luz do Sol encerra/ As divinas promessas da esperança. Eu me recordava: fora num palanque em frente da porta da escola da professora Serafina, num dia Sete de Setembro. Dia da Pátria. Todo um velho povo viu pérolas de chuva a descer-lhe dos olhos, ao ouvir estes versos de Castro Alves. E mais ainda a mãe do menino que os recitava.
Voltei à página de Jorge Amado em que havia parado, e li um parágrafo para ela, que pode ter sido este: “Amiga, mais forte, mais poderosa e mais bela que a voz maviosa do poeta que canta em São Paulo é a voz que chora nas senzalas do Recife. Porque não há nada mais belo que a voz do povo. E o gênio é aquele que a interpreta, que lhe dá forma, o que vai na frente de todos os que clamam. No Sul cantavam, no Norte ele ia começar a clamar o seu clamor, gritos e apóstrofes de vingança, ameaça e profecia, seria o mais lindo canto do seu tempo”.
- É assim que Jorge Amado escreve, mamãe. A senhora achou que alguma dessas palavras que acabei de ler, é contra as leis de Deus?
- O que achei é que ele escreve bonito como um corno – ela disse, me premiando com uma boa risada. E nunca mais tocou no assunto.
Tempus fugit.
Rio de Janeiro, 12 de dezembro de 1972.
Já estava aprontando a mala, para uma rápida ida a São Paulo. 
O telefone tocou. Ao atendê-lo, reconheci a voz de um amigo paulista chamado Oswaldo Assef. 
- Fala, turco!
- Tenho duas notícias para você. Uma boa e uma ruim.
- Já posso adivinhar qual é a ruim. Está chovendo aí!
- Para a nossa sorte, hoje o sol brilha na Paulicéia. Mas, para o seu azar, Jorge Amado vai fazer uma noite de autógrafos no mesmo horário da sua. Como qualquer lançamento dele dá enchente, o seu pode ficar às moscas.
Achei que o Assef tinha razão. A coincidência dos dois lançamentos, no mesmo horário, ia me ferrar.
- Agora conta a boa, turco!
- Leia o “Estadão” de hoje.
Fui em frente, à cata da boa notícia.
Comprei o jornal O Estado de S. Paulo na livraria do aeroporto Santos Dumont. E lá estava, na página 10 do seu primeiro caderno, uma matéria supimpa sobre os dois lançamentos, o do baiano universalmente consagrado e o do seu conterrâneo estreante, ilustrada com as capas de Tereza Batista cansada de guerra e de Um cão uivando para a Lua, este, do tal já devidamente avisado de que ia se ferrar. E que, ao se encaminhar para o avião, achou que de modo algum aquela seria uma viagem perdida. A julgar pelo espaço que lhe coubera no poderoso “Estadão”, e junto logo de quem, a ganhara, por antecipação.
São Paulo, mesmo dia. 
Cheguei à Francisco Alves, no Largo do Arouche, às cinco e trinta da tarde. Já estava tudo pronto para a inauguração da livraria, com a noite de autógrafos de Um cão uivando para a Lua. Havia pilhas dele bem à entrada da loja, que tinia de nova. Dirijo-me a um balcão e me apresento. Um rapaz me cumprimenta, se desmanchando em sorrisos e salamaleques, como se tivesse acabado de apertar a mão de uma estrela. E logo descubro a razão de tanto entusiasmo com a minha chegada: Jorge Amado acabara de sair dali. Antes de ir para a livraria onde estaria autografando, na Rua Barão de Itapetininga, também no centro da cidade, passara naquela outra, naturalmente movido pela matéria do “Estadão”. O mais surpreendente: ele havia comprado o meu livro, que deixou com o vendedor, pedindo-lhe para enviá-lo naquela noite mesmo ao hotel onde estava hospedado, assim que eu o autografasse. Também deixou um bilhete para mim, dando o seu endereço em Salvador, e dizendo para procurá-lo, quando fosse lá.
Ainda de pé em frente do balcão, vejo uma moça chegar, para o segundo autógrafo, antes da festa começar.
- Meu pai me telefonou de Feira de Santana recomendando que eu não deixasse de comprar o seu livro – ela disse.
- Quem é o seu pai?
- Eurico Boaventura.
Meu Deus! Era a Maria Eugênia, que conheci em Alagoinhas, quando ela era ainda uma criança. Agora, já estava na universidade. E logo faria uma respeitável carreira acadêmica, na Unicamp, a Universidade de Campinas.
Freqüentara muito a sua casa. O pai dela, o poeta e ensaísta Eurico Alves Boaventura, fora juiz de Direito da Comarca de Alagoinhas, até ser preso, depois do golpe militar, em 1964. Acusado de subversão, ele foi brutalmente torturado, como um cão sem dono, nas desertas areias do Cachorro Magro, que todo alagoinhense sabe onde ficam. Depois disto, aposentou-se. Juntou a família a seu desgosto e voltou para Feira de Santana, sua cidade natal. Ali, ele morava numa pequena rua, que batizou com o nome de Manuel Bandeira, seu amigo. Quais teriam sido os atos subversivos do doutor Eurico Boaventura, que poderiam ter atentado contra as instituições, os valores estabelecidos, e a segurança nacional? Saraus de poesia, na biblioteca da sua casa, quando jovens estudantes o ouviam recitar o que havia de melhor na poesia modernista. Sei disso porque fui um dos mais assíduos participantes desses saraus, tendo o privilégio de privar da intimidade do seu lar – e da sua amizade.
Histórico fim de tarde paulistano! Com o generoso gesto de Jorge Amado, e o aparecimento de Maria Eugênia Boaventura, ali representando o seu pai, e o meu próprio tempo numa cidade que jamais esqueceria, eu podia dar o assunto por encerrado. E pegar o avião de volta de coração ao alto, podendo até gritar no saguão do aeroporto de Congonhas, para quantos quisessem ouvir: “Orra meu, foi porreta!”
Poucos meses depois, o telefone toca e era o próprio Jorge Amado no outro lado da linha, me convidando para dois dedos de prosa em seu apartamento de Copacabana, onde eu, de uma vez só, conheceria pessoalmente ele, dona Zélia e Calazans Neto, o também já finado Calá, o artista plástico que ilustrou alguns de seus livros.
Naquela tarde, nossa conversa não evoluiu muito, por causa das ligações telefônicas, a todo instante. Dos jornais, das TVs, dos embaixadores de diversos países, da Academia Brasileira de Letras.
- Eu queria mesmo era ficar conversando contigo. Mas não me deixam. Vá à Bahia. Quem sabe lá dê para a gente conversar?
Fui. Só que quando cheguei à sua casa, na Rua Alagoinhas, 33, no Rio Vermelho, ela mais parecia uma estação de televisão. Sua ampla sala de visitas estava totalmente tomada por câmaras, cabos, refletores. Uma equipe da TV argentina o entrevistava longamente, invadindo quartos, escritório, cozinha, tudo. E ainda pedindo-lhe para mudar de camisa, nas mudanças dos sets de gravação. E pior: a toda hora ele era interrompido, pelos toques na sua porta. E lá ia ele para ser fotografado. Ora por bandos de japoneses, ou de paulistas. Não sei como agüentava esse tranco. E ainda conseguia escrever.
Voltaria a visitá-lo mais algumas vezes, em Salvador e no Rio. E também esbarrei nele em algumas esquinas de Paris. E dele guardo duas lembranças que me fazem rir. Uma, é a do que ele disse, ao me levar à porta do elevador, na primeira vez em que nos encontramos:
- Mire-se no exemplo de Glauber Rocha, que nunca perdeu o sotaque baiano.
A outra, é a das vezes em que ele me telefonava, às sete horas da manhã, perguntando:
- Te acordei?
Claro que este seu ouvinte jurava que não, de pés juntos. Eu era lá besta de deixar alguém que se chamava Jorge Amado contrariado?
Por ter feito o bem que pôde a seus pares, ao país, ao mundo. Porque ele era, antes de tudo, um ser utópico. E o capitão de longo curso do barco de um tempo que naufragou, convenhamos. Deixando-nos a mirar a linha do horizonte, na fronteira da melancolia.
Antônio Torres é escritor. Vencedor de diversos prêmios literários e autor dos romances como Um cão Uivando para a Lua, Pelo fundo da agulha, O nobre sequestrador e Essa terra
*Texto de conferência proferida nas Faculdades Jorge Amado, no encerramento do colóquio “70 anos de Mar Morto” (Salvador, Ba, em 30.08.2006), e publicado no livro Sobre Pessoas (Editora Leitura/ Belo Horizonte, MG, 2007).



Um convidado bem trapalhão




Revi há dias no Telecine (canal 65 do pacote da Net) o clássico ‘Por um punhado de dólares’ (‘Per um pugno di dolari’, dirigido por Sergio Leone, ITA/EUA, 1966). Trata-se, nada mais, nada menos, do que o codificador dos spaghetti westerns. Deu estrutura e linguagem ao gênero. É o filme-base da ‘stetica pasta’. Foi produzido dois anos antes, em 64, nas planícies da Espanha, mas não encontrou distribuidor para o mercado americano.
Formalmente, moralmente, não é faroeste, mas escracho, chiste - gozação. Faz uma releitura do gênero.
O Oeste de Leone (com o seu roteirista Duccio Tessari) é um mundo de circo, depravado, onde pistoleiros mulambentos disparam revólveres de balas intermináveis, as mulheres são vagabundas e, na verdade, ninguém presta.
Não há hérois, é um universos surrealista, ninguém tem nada a ver com as lendas. Parece uma revisão dos filmes de samurais japoneses da década de 50.
O mocinho - Clint Eastwood, aos 34, fumando cigarrilhas e dizendo um texto sinistro, de gibis europeus - é absolutamente vazio e sem personalidade. Limita-se a passar fogo nos adversários, como quem estoura balões num tiro ao alvo de parque de diversões.
Ninguém faz a barba, todos vestem capas de chuva (mesmo dentro de casa), há poeira para todos os lados. Um simples duelo, ilustrado por música estridente e big closes assustadores, pode arrastar-se por toda a eternidade.
A sintaxe - exageros que prolongam as cenas até o limite, como se fossem pensadas em slow motion - recorda uma fantasia juvenil ao contrário. É Bambi narrado por um molestador; Branca de Neve na ótica do piloto do Enola Gay.
Leone faz pilhéria com o mítico, o sagrado. Invade nosso imaginário como um intrujão. É penetra em festa para a qual não foi convidado.
Não é western. Não tem graça.
Almir Feijó é Publicitário especializado em Marketing Político, Jornalista, autor de 'Descríticas' (2001) e 'Descríticas - 316 filmes' (2005). 

Por enquanto o silencio!


Cara Sister Claudia. A semana foi longa, muito longa mesmo, ao final eu explico melhor. Ainda não tinha pago aquela ultima conta e recebi a noticia da passagem da Amy, que se juntou ao Jimmy, Bob, Michel, Janis, Elis, e tantos outros que partiram e nos deixaram o silencio. Hoje vou lhes contar algumas boas estórias de um menino que aprendeu a gostar da vida, das brincadeiras, e das “artes” e sobretudo de viver a cada dia um dia diferente. Isso tudo ele aprendeu observando e conversando com a sua Mãe. Lembro da infância alegre e das horas de estudo que sempre se iniciavam as 6:00 AM com a mesa posta e o café fresquinho. Lembro das viagens e passeios que sempre estavam acompanhados dos bolos, tortas e deliciosos sanduíches. Poderia ainda lembrar das “artes” que são o repertório de um menino esperto e observador, são varias estórias: Como por exemplo quando eu estava em casa brincando com uma Gilette, próximo do horário de sairmos para um casamento aflito guardei a mesma no bolso e a retirei um pouco antes da cerimônia começar, continuei brincando e não podia ser diferente, fiz um belo talho no dedo...A quem recorrer, sim claro ! Minha Mãe estava na entrada da igreja aguardando a noiva chegar, eu com o dedo cortado e sangrando foi ao seu encontro, fazendo o trajeto oposto ao da noiva, ou seja, o piso branco estava sendo decorado de vermelho...Foram instantes dramáticos, pois, a noiva acabara de chegar e tudo deveria começar, mas não começou a D. Lais aproximou-se pegou seu lenço fez o sinal de costume e começou a limpar o sangue de modo que a cerimônia pudesse iniciar...Em outra oportunidade fomos a praia e o final de semana prometia, acordei cedo tomei meu café a guardei a casa a iniciar os barulhos...portas, janelas, musicas e etc, todos a postos recomendações feitas e confirmadas, seguimos para praia , na porta de casa nosso veiculo fusca bege que ainda lembro da placa AF 8020. Horas de sol, mar, futebol, correria, sede, e fome... muita fome... eu sabia que me queixasse de fome perderia boa parte da praia... não deu outra sai a francesa e não disse pra ninguém, localizei a rua que nos estávamos e a casa era fácil, pois, o nosso carro estava estacionado na frente...Cheguei tomei banho e fui almoçar...peixe e camarão é claro. Rápido e rasteiro para retornar para as brincadeiras... Não me deixaram retornar de imediato, pois tinha que esperar a comida “baixar”, enquanto isso todos estavam na praia e só em casa que injustiça... acho que foram uma duas horas ou três de desaparecimento, minha Mãe já tinha mobilizado Bombeiros, PM, Civil, Federais, Aeronáutica se duvidar até um radio para a Guarda Costeira...dizem que foi dramático...só terminando com a observação de uma menina que disse: Não se preocupe Tia...vou até em casa ver se ele não foi almoçar...Quando minha Mãe me viu não falou nada apenas me abraçou forte e disse... Minha Nossa Senhora.... Meu Deus do Céu...
São muitas e boas estórias, um dia fiquei perdido no passeio Publico, no outro botei fogo na mata próximo ao aeroporto do Bacacheri, impedindo pousos e decolagens, no colégio tomávamos vinho do padre e colocávamos água, quedas de bicicleta, e tantas e tantas farras...Pois é Sister boas e agradáveis lembranças, rendo minhas homenagens e lhe peço licença para falar de D. Lais , minha mãe Negra como eu que tanto lutou e luta agora pela vida em silencio..., levanta daí Lais a vida te espera....
André Luiz Nunes da Silva é advogado. 

É preciso que voltemos a ser governados por políticos, não por mitos
O Brasil já tem uma mitologia política. Não somos mais governados por homens, por políticos. Somos governados por mitos. Um desavisado qualquer que se detivesse sobre a análise da atual crônica política brasileira não chegaria a conclusão diferente: somos uma República de mitos.
Desfilam em nosso panteão de deuses o primeiro presidente operário, a primeira presidente mulher e, chute dos chutes, podemos assistir ao nascimento da primeira presidente mulher negra (ou alguém dúvida que Marina Silva é, desde já, candidata em 2014?). Todos mitos.
Um mito não se constrói sem a complacência de boa parte da imprensa. Ela lhes dá um rótulo, uma identidade, uma embalagem com a qual se apresentam ao público. Ao fim, satisfeita com seu trabalho, rende-se ao mito, alimenta-o, engrandece-o e, raramente, mata-o.
Na última semana, assistimos à construção de um novo mito: o do senador vitimizado. Vitimizado e intempestivo. Trata-se de Roberto Requião. O peemedebista causou alvoroço na mídia após tomar, à força, o gravador usado por um jornalista e, não contente, apagar o seu conteúdo simplesmente porque se sentiu ofendido com a pergunta. O tema é sensível ao senador: a aposentadoria que ele recebe pelo tempo em que foi Governador do Paraná.
Como se não bastasse, no dia seguinte Requião foi à tribuna dizer que era vítima de bullying. Não, senador, o que o senhor faz é uma tentativa de acossar a imprensa. Faz-se o jogo sujo da manipulação. O senhor alega que a imprensa lhe é desfavorável na esperança de que ela se esforce para provar o contrário.
Alguém vai lembrar isso a Requião? É pouco provável. Estamos, todos, convencidos de que esse é o jeito do senador e não há nada a se fazer. José Sarney, nada mais nada menos que presidente do Senado, saiu em defesa do colega. Esqueceu-se da sua obrigação, à frente de uma instituição fundamental da democracia, para sair em socorro do amigo.
Mas qual é o efeito deletério do mito para a democracia? O problema é que para a existência do mito ser completa é necessário calar quem dele discorde. A existência de mitos corrói o debate democrático, empobrece-o, tira-lhe o essencial: a presença do divergente. Não há democracia que sobreviva ao aniquilamento do contrário. Não há sistema democrático que não sucumba ao soterramento da divergência. Não há democracia que possa sobreviver sob o governo de mitos.
O mito é inimputável. Seus crimes, seus deslizes, são meros rompantes de fúria, meros esguichos espontâneos de suas personalidades que devem ser perdoados, relevados em nome do bem que eles proporcionam. Assim, quem critica o primeiro presidente operário é preconceituoso, é elitista. Quem critica a primeira mulher presidente é machista. Quem critica a primeira presidente mulher negra é racista e machista (se for católico, é um pária).
Não precisamos ser governados por operários, mulheres, industriais, negros, ricos, pobres, homossexuais, heterossexuais, brancos ou amarelos. Precisamos de pessoas comprometidas com políticas públicas, e isto independe destas variáveis.
É preciso dar a César o que é de César. É preciso devolver os mitos à mitologia e os políticos à política.
É preciso que voltemos a ser governados por políticos, não por mitos.
Marcos Silva é jornalista. leia mais no seu blog http://blogdomarquitos.blogspot.com/

Odeio Prepotência

Era 1998, estavamos em Paris, papai já bem doente, participara da Feira do Livro de Paris e recebera o doutoramento na Sorbonne, o que o deixou muito feliz. De repente, uma imensa crise de saude se abateu sobre ele, foram muitas noites sem dormir, só mamãe e eu com ele. Uma pequena melhora e fomos tomar o aviao da Varig (que saudades) para Salvador.
Mamãe juntou tudo que mais gostavam no apartamento onde não mais voltaria e colocou em malas. Empurrando a cadeira de rodas de papai, ela o levou para uma sala reservada. E eu, com dois carrinhos, somando mais de 10 malas, entrava na fila da primeira classe. Em seguida chegou um casal que eu logo reconheci, era um politico do Sul (nao lembro se na época era senador ou governador, já foi tantas vezes os dois, que fica dificil lembrar). A mulher parecia uma arvore de Natal, cheia de saltos, cordões de ouros e berloques (Calá, com sua graça, diria: o jegue da festa do Bonfim). É claro que eu estava de jeans e tênis, absolutamente exausta. De repente, a senhora bate no meu ombro e diz: Moça, esta fila é da primeira classe, a de turistas é aquela ao fundo. Me armei de paciência e respondi: Sim, senhora, eu sei. Queria ter dito que eu pagara minha passagem enquanto a dela o povo pagara, mas nao disse. Ficou por isso. De repente, o senhor disse à mulher, bem alto para que eu escutasse: até parece que vai de mudança, como os retirantes nordestinos. Eu só sorri. Terminei o check in e fui encontrar meus pais.
Pouco depois bateram à porta, era o casal querendo cumprimentar o escritor. Não mandei a putaquepariu, apesar de desejar fazê-lo, educadamente disse não. Hoje, quando vi na tv o Senador dizendo que foi agredido por um repórter, por isso tomou seu gravador, apagou seu chip, eteceteraetal, fiquei muito retada, me deu uma crise de mariasampaismo e resolvi contar este triste episódio pelo qual passei. Só eu e o gerente da Varig fomos testemunhas deste episódio, meus pais nunca souberam de nada...
Paloma Jorge Amado é psicóloga.
Define a sua preferência política desta forma. "Sou livre pensadora. Odeio tudo que é contra o povo, reacionário, retrógrado, preconceituoso. Se tivesse que escolher uma ala, escolheria a das Baianas."




Samurais Atômicos


Syrus voltou da aula revoltado. Um destes meninos da mesma idade o havia tirado do sério. Contando vantagens de como havia 'feito' para um outro menino desmaiar de dor. O Syrus sabia da mentira deslavada em forma de fantasia. Mesmo assim, não se conformou.Por que mamãe, as pessoas gostam de imaginar o mal que podem fazer aos outros? A tia do escolar veio até dizer pra eu não ligar ,mas não tem como. Se eu não ligar, quando ele for maior, ele vai achar legal. Enquanto ele não parar com essas idéias maldosas , não converso mais.
De todas as as psicopatias conhecidas, como a depressão, a síndrome do pânico, a ansiedade, a compulsividade, a única que o próprio paciente não procura apoio médico é a raiva. Comportamentos extremamente agressivos são bem aceitos pelos próprios portadores.Os que convivem com o "raivoso" é que vão em busca de ajuda.
Recebi inúmeras reclamações de pessoas atordoadas pelos comentários que estavam sendo feitos sobre o caos instalado no Japão. Pasmem sobre o que estão postando: tudo ocorreu porque somente 4% dos japoneses crêem em Jesus Cristo.
As religiões são fontes para um equilíbrio pessoal. Elas servem para trazer alento e força nos momentos em que as pessoas precisam. Servem para acrescentar preceitos morais e ética comportamental. Deus ,em sua Infinita Sabedoria, não precisa delas.Nós, imperfeitos que somos, precisamos. Em que ponto o ser humano deixa de ser humano e passa a agredir com palavras tão duras quem já perdeu tudo? No exato ponto em que não sabe da medida do amor divino e incondicional. Falo sobre isso como alerta aos que julgam saber de algo, os "professores" de Deus, porque como o Syrus, penso que amanhã eles podem não só estar desferindo impropérios com suas suas línguas afiadas ,mas também matando novamente em nome do Cristo, como na Idade Média.
A Umbanda, religião plenamente brasileira, utiliza em seus rituais as forças da natureza em consonância com as Leis Divinas, ou seja, buscamos a cura dos males dos que nos procuram, o consolo e a força nos elementos da natureza. Sabemos da sua Força Divina e de quanto este mundo ,neste tempo em que vivemos, precisa conhecer a natureza para poder conviver melhor com ela. Gosto de citações porque algumas nos conduzem a um pensamento imortal, como o de Leonardo da Vinci : "Nunca o homem inventará nada mais simples nem mais belo do que uma manifestação da natureza. Dada a causa, a natureza produz o efeito no modo mais breve em que pode ser produzido."
As pessoas ligadas à natureza entram facilmente nestes pensamentos universais. A Umbanda é simples. Amor, caridade, fé, compaixão são sentimentos universais. Você pode tê-los em qualquer lugar do mundo e fora dele. Mas, tudo nesta vida, precisa ter um entendimento prévio. A Umbanda foi criada por pessoas simples e para pessoas simples, repleta de sabedoria. É ação e reação. Se você corta uma árvore que lhe dá sombra, no verão terá que ficar ao sol.
Os japoneses não chamam os terremotos de tragédias, pois sabem que moram num local no qual é próprio da natureza tais eventos. Porque não há como conter as reações da natureza. Preocupam-se agora sim como fatores falíveis humanos, como as que podem ter auxiliado na falta de uma proteção maior nas usinas nucleares de Fukushima. Contudo, estão fazendo o máximo possível para reverter esta situação: os "Samurais atômicos", assim são denominados heróis que lutam contra catástrofe nuclear. Porque simplesmente eles sabem que no dia seguinte o sol virá de novo e assim, a esperança e a escolha pela vida se renovam, e com elas se recontrói um novo mundo. Erico Veríssimo já dizia em o Tempo e o Vento: "Quando os ventos de mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de vento."
A sua fé pessoal, as suas crenças, não devem nunca ser usadas como armas, antes como escudo em frente os problemas da vida. Assim como os produtos da engenharia atômica, suas palavras irradiam energia. Pensem que esta sua energia irradiada poderá chegar até outras pessoas. E você é responsável por tudo o que diz e provoca. Não crie barreiras para o amor e a caridade, não crie barreiras para seu próprio crescimento.
Andréa Destefani é escritora, publicitária, jornalista, Filha de Yansã.


Vida

um ano a mais
um ano a menos
que diferença faz
quando já somos
mais ou menos
mais suaves
mais sábios
mais fortes
mais justos
e de mais a mais
cromossomos

um ano a mais
um ano a menos
 vida é cais
e lá vão nossos sonhos:
barcos pequenos

um ano a mais
um ano a menos
lendo os sinais
nos esquecemos
e quando nos lembramos
é tarde demais

um ano amais
outro odiais
um ano demais
outro de menos
um ano tanto fez
outro tanto faz
um ano como nunca houve outro
um ano sem pagar e só levando o troco

um ano que vem
um ano que vai
e os mesmos ais
mais amenos

Antônio Thadeu Wojciechowski nasceu em Curitiba, em 1950. Tem mais de duas dezenas de livros, tanto em prosa quanto em poesia, publicados por seu próprio selo, a Lagarto Editores. Letrista e compositor, é autor de algumas centenas de músicas, algumas delas gravadas pelas bandas Beijo AA Força e Maxixe Machine. Também trabalha com publicidade e tradução. Informações via Travessa dos Editores.


DOADORA DE SANGUE


Criei-me sabendo e vendo meu pai doar sangue. Como ele é ( ainda é, Graças a Deus) O+, sempre que alguém precisava, procuravam meu pai. Houve uma ocasião em que ele doou tanto sangue que a recebedora brincou que seu próximo filho nasceria de olhos azuis, como meu pai. Assim, declarei-me doadora universal tão logo fiz minha tipagem : O-. Carreguei sempre, com o maior orgulho, minha carteira de doadora. Estreei na função, em 1972, no Hospital Santa Tereza, em Guarapuava, com uma doação direta na fonte. Ou seja, do meu braço para o braço de um rapaz esfaqueado, que já esvaziara todo o estoque da cidade, incluindo o Exército local. A próxima opção era a Faculdade. Passaram de sala em sala convidando os voluntários. Lotamos uma Kombi e lá fomos. De todos, só o meu sangue foi aceito e, deitei-me na cama ao lado do rapaz. Nunca esquecerei o seu olhar. Não sei se ele estava enxergando, mas, vendo através do coração, tenho certeza de que ele estava. O Diretor do Hospital, Dr. Aragão de Matos Leão, a quem eu conhecia desde adolescente, brincava a cada instante: cuidado com esse sangue, que é importado de Irati... Não sei se foi a sugestão, mas o rapaz se salvou. A alegria que senti ao saber disso, fez-me decidir que doaria sempre que alguém precisasse. E assim fiz, por muitos anos. Enquanto trabalhei na Caixa, até aposentar-me, atendi a todos os chamados. Eu, literalmente, dava o sangue pela Caixa.
Havia uma outra mulher, também O-, a Maria do Rocio, com a qual eu me encontrava todas as vezes, nos hospitais e laboratórios. Chamávamos uma a outra de irmã de sangue. Brincávamos sempre que se precisássemos, chamaríamos imediatamente uma a outra. Depois do surgimento da AIDS então, era quase um juramento. No entanto, por ironia do destino, ela morreu sem que eu soubesse. Talvez meu sangue a tivesse salvado, quem vai saber. Até que uma ocasião, dirigi-me ao Hemocentro para mais uma doação e recebi em casa um convite para comparecer lá. Quase morri de susto, mas, era só portadora de Hepatite A, sem o saber. E assim acabou minha carreira de doadora. Minha família deu vivas. Eram totalmente contra minhas sucessivas doações. No entanto, pouco tempo depois, meu tio fez uma cirurgia cardíaca e não pude doar. Foi uma luta conseguir todo o sangue que ele precisou. Agora, sinto-me muito mal quando alguém precisa e eu não posso mais doar. Era minha contribuição à vida. Não sei como adquiri a hepatite mas, ela me tirou uma das maiores alegrias que eu tinha.
Mesmo assim, cadastrei-me como doadora de medula óssea, com a minha afirmação de que se vive com hepatite, porém, com leucemia não. Porém, devo ser única no universo, pois até hoje não encontraram um compatível que precisasse. Se encontrarem, aqui estou. Vou adorar doar a medula óssea, mesmo com hepatite A.
Pricila Marina Koch é formada em Letras, aposentada da Caixa Econômica Federal e Coordenadora do CITPAR - Centro de Integração de Tecnologia do Paraná.
Mas também é Iratiense e doadora de vida.


Paz nas Torcidas. Paz nos Corações.


Eu não sei falar sobre cultura da paz. Eu nunca li Tostói. Também sou um mau exemplo religioso. Acendo uma vela para cada santo, rezo em todos os altares de acordo com minha necessidade e até recito Em nome de Jesus, com meu patuá no bolso e um japamala no pescoço.Família católica, mãe espírita, pai macumbeiro, vô batista e filha budista, esta minha família só tem uma coisa em comum na sua fé: o respeito.
Não, eu nunca chamei meu pai de senhor. Na verdade eu nunca chamei nem o presidente, nem ministros e nem o bispo de senhor, não fui educada assim. No meu tempo de repórter e de colunista, quando convivia mais de perto com os poderes, começava a entrevista chamando o governador de “senhor”, em um esforço hercúleo, mas já descambava pro “você” na segunda questão.
Pois então que raio de educação de respeito foi essa que eu recebi? Aprendi com meu pai e com minha mãe (que dizia: “Senhor” está no céu), e na escola menonita, o Erasto Gaertner, lá no Boqueirão, que todos somos iguais. Muito iguais. Mas muito muito mesmo.
Minhas dores são iguais as dores de qualquer um. Minha alegria de torcedora pode ser idêntica a dos torcedores do Íbis ou do Chelsea, e minha liberdade de escolher um candidato e suar por ele é igualzinha à sua, e isso porque um bando de jovens cabeludos lá nos anos 70 deu sangue por isso.
Jovens que poderiam ser o seu pai, a sua mãe ou aquele seu filho mais rebelde. Porque todos fazemos parte da mesmíssima humanidade, compartilhando uma época e escrevendo, atitude por atitude, uma mesma história. A história do nosso tempo.
Pra falar de paz eu preciso invocar o respeito. Acredito que quem respeita o outro, a vida, a liberdade, a humanidade, quem entende que todos somos iguais, e irmãos, e desejosos de amor e bênçãos, anda por um caminho de paz.
A partir desta opção amorosa é possível evoluir e tornar-se uma pessoa melhor, com questões muito simples pra fazer em “fofoca íntima” (como dizia Gaiarsa), a noite, antes ou depois da sua oração:
- Hoje eu desrespeitei alguém? E hoje eu fui, de alguma forma, para alguém, uma benção?
Pessoas que abençoam, perdoam. Amam, respeitam e podem realmente viver em paz.
-x-
Esta é a minha homenagem a Ana, esta guerreira da paz e da luz, um dos maiores exemplos que tive o privilégio de encontrar nesta jornada.
Agradeço a Claudia pelo convite e pela generosidade em compartilhar seu concorrido espaço.
Lara Sfair é jornalista. 

Eleições e amizade


Quase 30 anos de divergências ideológicas, com amizade e respeito.
De quatro em quatro anos observo velhos e bons amigos se degladiando e boas amizades até se encerrando por causa da eleição presidencial. Sempre penso em escrever sobre o tema. A preguiça nunca deixou. Só que em 2010, as discussões em volta do meu umbigo se acirraram tanto que vou dar minha humilde opinião sobre o tema. Ideologia e amizade nem sempre caminham na mesma estrada. Viva a diferença!!
Para começar amigo aceita a opinião do amigo, mesmo quando não concorda. Respeito em quem meus amigos votoram se foi na Marina, Plínio, Serra ou na Dilma, é decisão pessoal de cada um. Uma amizade é sempre construída na base do respeito, gratidão e confiança. Os meus melhores amigos, aqueles de todas as horas não acompanharam meu voto no Plínio de Arruda Sampaio, alguns sim. A maioria nem em pensamento cravaram o 50 nas urnas. Ah, nem por isso deixaram de ser meus amigos. Continuo admirando-os da mesma forma. Depois das eleições, mesmos com as cobranças que fiz o jogo da direita ou que sou muito radical, as coisas voltam ao normal e a relação de amizade também.
A diferença ideológica é interessante e apimenta qualquer amizade. Se eu não puder fazer uma piada eleitoral para seus amigos para quem você vai fazer???!! O chato que alguns ficam ofendidos como se estivesse falando deles.. Tudo bem, as vezes é melhor agir com prudência, especialmente, em anos eleitorais. Patrulhamento ideológico é horrível, intimidador. Não é porque você está organizado em um partido e comprometido com uma candidatura te dá o direito de adotar atitudes errôneas, mentirosas e equivocadas.
Depois do primeiro turno, estou assustada e enojada com a campanha de baixo nível entre os seguidores dos dois candidatos. Mentiras sórdidas, um falso moralismo que eu não esperava vir de setores que lutaram pela redemocratização do país. Pessoas esclarecidas me enviando mensagens eletrônicas preconceituosas e reacionárias sobre o aborto. Partido político retirando do seu programa propostas históricas , tudo para não perder votos de determinados setores religiosos.
Por todos esses motivos, eu não quero perder nenhum amigo por causa de divergências ideológicas. Na minha concepção de mundo, amizade supera um voto. O que eu não posso é ajudar a despolitizar o processo eleitoral com ideias atrasadas e discursos facistas. Certamente, até o dia 31 vou ter muito enjôo. Vou suportar as histerias de alguns amigos e pretendo não perdê-los por causa de nenhuma candidatura. Não vou jogar no lixo nenhuma amizade de anos por causa da Dilma, do Serra, voto nulo ou em branco.
Sílvia Macedo é jornalista.


Amar, conquistar e surpreender


Numa certa aula sobre crônicas, um professor, com sua fala mansa, me falou que eu sou uma mulher de um amor só. Ele estava certo.
Como todas as pessoas que amam, eu ando por aí mais feliz que pinto no lixo, sofro muitas vezes por semana, sonho dormindo, sonho acordada, sinto saudades e preciso de um tempo sozinha. Mas o melhor disso é sentir o que o amor que se dispensa a outra pessoa é recíproco.
No meu caso, o namoro veio primeiro, o amor depois. No caso dele, o amor veio primeiro e o namoro depois.
Não estou aqui para falar de reciprocidade amorosa, estou aqui para falar de amor numa via única, a que vem. Quero apenas confirmar o que disse Arnaldo Jabor em uma outra crônica, Eu Te Amo Não Diz Tudo. Concordo com você, Jabor, não diz mesmo. Por isso vou relatar como eu descobri que sou amada. Piegas, sim, mas é a minha parte favorita da vida.
Tudo começou durante a adolescência, eu com 14 e ele com 15. É, precoce. A primeira demonstração de amor foi a paciência com que ele esperou meu um mês de indecisão. Até então eu pensava que era só cisma comigo. Esta espera culminou com ele sentado no sofá da minha casa, encarando meu pai. Quem, em plenos anos 2000, vai pedir a mão da menina ao pai dela? Ele foi, pediu e conseguiu. Seis anos e nove meses depois minha mão ainda é dele.
Algum tempo depois eu receberia mais uma, e talvez a maior de todas, prova do amor dele. Foi num dos piores momentos que eu passei até hoje. Sozinha em meu apartamento, à meia-noite eu recebo uma ligação e descubro que meu avô acabara de falecer. Na hora eu liguei para o amado em questão, que se encontrava a 150 quilômetros de distância de mim. Dei a péssima notícia e desliguei o telefone. Menos de cinco minutos depois ele me ligou e disse que estava saindo de Irati e vinha me buscar em Curitiba. Ele apenas não queria que eu ficasse sozinha nesse momento. Quem, em plenos anos 2000, se joga numa viagem de duas horas, durante a madrugada, para dar um abraço apertado na namorada num momento difícil? Ele se jogou, viajou e abraçou.
Assim, a cada dia ele ama, conquista e surpreende. Até que a morte, ou mesmo a vida, nos separe.
Carolina Fornazari, é 99% jornalista.



Misantropia antissustentável


Sou misantropo. Tenho acessos de misantropia. Uma misantropia humanitária. Conveniente, que só surge quando estou completamente aborrecido com a companhia ou com o interlocutor. Um psicólogo, talvez, e se estivesse lá em plenas faculdades mentais -são poucos os que as têm em bom estado de uso – diagnosticaria que tenho ou provoco algum processo de fuga. Mas isso é toda uma outra história. Não vou me desviar. Minha misantropia é seletiva e tem especial apreço pelo tipo humano que denominamos “engajado”. Pergunto, leitor, há pessoa mais chata que o sujeito engajado? Pergunta retórica. A resposta é NÃO.
Quem foi que declarou a falência das grandes ideologias?
Bobagem. Elas existem e estão tanto ou mais fortes do que jamais estiveram. Um dos exemplos mais bem acabados e muito – mas muito na moda – é o ecologicamente engajado.
Eu não aguento os ecochatos. Eles calculam tudo em créditos de carbono. Eu mesmo já ando a converter tudo para créditos de carbono. Quando vejo alguém chupando um Chicabom, disparo: qual vai ser sua ação compensatória? O interlocutor, entre o perdido e o indignado deve me achar meio maluco. É que o negócio é imperativo. E eles sã bons. Uma bondade cruel. Ou você sai por aí gritando a preservação, ampliação e recuperação da mata ciliar brasileira ou é logo acusado de ser contra a lei da gravidade. Mas tem que gritar mesmo. Quando jogo, descuidadamente, um papel de chicletes no chão então, é um Deus nos acuda.
Não é difícil reconhecê-los, leitor. No mercado, observe aqueles que não usam sacolinhas plásticas. Levam sempre a sacola retornável a tiracolo. Símbolo máximo de adesão e consciência ecológica – em geral basta levar uma dessas sacolas junto ao corpo para se dormir em paz quanto à natureza. Nas ruas estão andando de bicicleta, te afrontando, como que gritando que você é um gordo-velho-capitalista. Tudo bem que eles estejam passando por você tomando Coca-Cola e usando tênis All Star - eles saem de bicicleta!. Isso liquida o jogo. No escritório, não tomam café, como faz toda a humanidade. Com cara de superioridade, tiram da sacola de palha um copo de suco natural. E não imprimem nada se não for em papel reciclado – ou reciclável, até o vocabulário é próprio e já me confunde.
Ontem me atirei numa conversa com um deles. Eu nunca entendo nada do que dizem. No seu discurso meio engrolado meio intelectual, me dizia: “a sustentabilidaaaaade [eles esticam as sílabas como que para dar força redobrada aos argumentoss] não é só premeeeeente em âmbiiiito nacionaaaal. É, inclusive, necesááááária para cuuuuuuuumprir os objetivos do milênio”. Fiz cara de nada e apelei para os ídolos.
Impossível. Não consegui saber se meu amigo nutria mais admiração por Al Gore, Gabeira, Marina Silva ou o Curupira. Passou a falar sobre energia renovável, mais notadamente da eólica(!), de gases que influenciavam nisso e naquilo, se eu conhecia espécies já extintas de pássaros da Amazônia, se eu usava água no banho na privada – ou seria o contrário? – o que achava dos inseticidas, da mãe-terra, o planeta é único.... Minha misantropia veio me salvar. Lembrei que tinha de passar no mercado comprar pão, presunto e leite. Valha-me Deus. Prefiro a companhia dos empanados e dos inseticidas nas gôndolas a um bate papo com um ecochato. Viva a falta de consciência ecológica.
Marcos Silva, é 99% jornalista.


Da nobre arte de fazer inimigos e irritar pessoas


Modéstia à parte, eu tenho muitos inimigos. Tantos que não conseguiria contá-los. A verdade é que não quero saber quantos são. Meu interesse se concentra nos desafetos que detêm alguma forma de poder e o usa como déspota pouco esclarecido, característica muito comum nos políticos nativos.
Aprendi que não vale a pena gastar tutano e neurônios com os epígonos. A patuléia miúda é numerosa e só existe coletivamente. Não pensa. Reage emocionalmente. Segue o líder com a cegueira da paixão e da burrice.
Não perco tempo com a malta que se infla de raiva e indignação quando o chefe é atingido. Meu alvo é o suserano de alto coturno. Nunca o torcedor fanático. Meus inimigos de estimação são todos de grosso calibre. A eles dedico o melhor de meus esforços e criatividade.
Isso explica porque identifico poucos inimigos, apesar dos áulicos que servem a cada um deles e que me detestam porque coloco em risco a sua segurança representada no mais das vezes por uma sinecura, um salário, um afago, um favor ou simplesmente pela identificação de quem não consegue justificar sua existência de outra forma.
São de variada catadura, mas há algo comum entre eles. Percebo em suas reações raivosas um ressaibo de inveja e frustração que se expressa coletivamente pelo primitivo. Há uma categoria especialmente patética, próxima da bufonaria, nesse universo. É a classe dos apedeutas, dos intelectuais menores ou dos que tentam se fazer passar por intelectuais.
Se dão ares de sábios e exercitam a crítica pessoal como forma de sublimar sua evidente limitação de neurônios ativos. Não há aditivo que possa ajudá-los. Quase não suportam conviver com a própria mediocridade e isso talvez explique as tentativas de suicídio nesse meio, embora também nisso sejam incompetentes. Não há nada mais ridículo que o suicídio frustrado.
Eu não suporto nada que soe a horda. Prefiro insular-me e só ver os amigos mais chegados. Defendo-me das torcidas organizadas com distância e indiferença. Minha formação em verdadeiros partidos comunistas de antanho provou-me que a máxima dos jesuítas depois adotada pelos leninistas, poucos mas bons, é saudável e eficaz para salvar-nos da patologia social.
Os inimigos não me fazem dano. Mais me divirto com a loucura humana do que me irrito. Os inteligentes percebem. Sou uma pessoa de poucas raivas e rancores. Acredito que o pecado do orgulho me protege desses sentimentos. Em minha soberba sempre enxergo os medíocres como bufões. Há décadas tenho detratores profissionais que ganham a vida nessa faina. Eu acho engraçado. Essa profissão é uma originalidade da província.
Compreendo porque deixo de maus bofes os medíocres. Sempre houve em mim uma dose robusta de inconformismo. Tenho dificuldades para aceitar o que está posto e estabelecido. Não aceito regras imutáveis, desconfio das leis restritivas da liberdade individual, tenho horror de qualquer manifestação autoritária e um desrespeito intelectual absoluto pelos governantes e pela burocracia entrincheirada atrás dos poderosos. Daí essa minha natural vocação para o questionamento, a transgressão, a rebeldia e o que chamam de espírito anárquico.
O inimigo é o sal da terra, dizia meu avô Diego Vera. Eles são a evidência de que temos opinião e sabemos defendê-la. O homem que só tem amigos não tem caráter, dizia ele. O bom mocismo é papel para os néscios e figurantes. Eu, modéstia a parte, tenho muitos inimigos e poucos, mas bons e brilhantes amigos, que são a contraprova de que não vim à este mundo para ser coadjuvante e passá-la em branco.
Terrível, desolador, será o dia em que os inimigos desaparecerem. Esse será o verdadeiro sinal do fim.
Fábio Campana é Jornalista e escritor.

* Negritos ou no caso branquitos, são meus.

Mano 2014


Agora é a vez dos Manos na seleção. Os cartolas, os empresários de chuteiras, as torcidas organizadas, as escolas de samba e o vendedores de correntes. Estão em festa. O futebol do Brasil é de São Paulo. Quem não for a favor deles está fora ou melhor continuam de fora.
Que os Deuses me livrem dos comentaristas e dos programas esportivos daquele Estado. Imagine o Milton Neves fazendo propaganda da Nike, Adidas e da Puma. O Juca Kfouri achando péssimo a sede da CBF ser no Rio de Janeiro, pois aquele Estado como os outros não tem futebol. O pessoal da MTV não comerá mais amendoim Japonês, irão se fartar de sushi, sashimi, servidos por gueixas em trajes mínimos, tipo team leaders, decorado com os brasões dos times do estado nordestino/bandeirante. O único que lamentará sera o Paulo Malluf, que hoje está fora da verba, ops, vida publica.
A impressão que fica é que existe um ranking de preferência, que é assim; em 1º, 2º, 3º, 4º e 5º fala-se do futebol de São Paulo em 6º, 7º e 8º comenta-se do futebol do Rio e em 09º e 10º, revesando, lembram dos Clubes mineiros, diga-se, Atlético e Cruzeiro e dos gaúchos, que são apenas o Internacional e o Grêmio. Aí vem o futebol internacional-brasileiro e por último e bem por último vem disputando o mesmo espaço, os outros Estados com o futebol Argentino. Sim o resto do Brasil é tão odiado por eles quanto o ódio que nutrimos pelos hermanos.
E como primeiro ato foi tornar o Morumbi irrecuperável e agraciar o Timão, do Ronaldão, do Roberto carecão e do Dentão, em seu centenário, com um Estadio para abrir a copa do mundo. 48 mil, 65 mil lugares é mero detalhe, que pode ser corrigido nos 4 longos anos que ainda existem para o início da copa. Até lá quem sabe eles consigam deixar a copa só no Rio e em São Paulo, pois o Brasil da mídia é lá.
Agenor Corrêa é meu marido. Morram de inveja.


Discriminação de Gênero, cultura retrógada e machista.




Antes de começarmos este texto, necessário se faz a explicação do que é GÊNERO.
Enquanto sexo na visão biológica distingui masculino de feminino o gênero classifica os seres humanos pela visão sociocultural, ou seja, em determinada época a sujeição, no nosso caso, do sexo feminino a determinadas regras em favor do masculino, colocando assim o masculino em situação de poder muito superior ao feminino, surgindo ai a discriminação de Gênero.
As mulheres ainda nos dias de hoje, são tratadas como “coisas”. Essa coisificação da mulher é algo que esta arraigado na mente humana e o pior é quando este preconceito, machista, parte da própria mulher, pois algumas vivem num meio tão machista e preconceituoso desde o seu nascimento que isso torna-se normal, sendo difícil mudar este pensamento, talvez mais difícil ainda que mudar o pensamento machista de um homem.
Como já dito antes, a discriminação é cultural, logo está em todas as classes sociais, religiosas, etnias, enfim, na população em geral, sem distinção. Por isso, precisamos coibir esse mal, começando em nossa própria família, excluindo do nosso convívio as brincadeiras, tidas como inocentes, que na verdade de inocente não tem nada, as músicas que depreciam o gênero feminino, pois as brincadeiras, piadinhas, humilham e maltratam.
Precisamos mudar radicalmente a forma de vermos as mulheres ou a sociedade vai pagar ainda mais caro do que já paga hoje.
Errados estamos quando pensamos que as mulheres são fracas, frágeis, sensíveis demais a ponto de serem medrosas, ledo engano, elas são sim cautelosas, fortes, sensíveis a ponto de analisarem determinadas situações bem mais a fundo do que os homens.
As mulheres que possuem pensamento machista, assim pensam por imposição comportamental masculina, senão vejamos uma criança inserida em um mundo violento, crescerá violenta, a probabilidade de ela ser calma e dócil é muito remota, assim é com todos que nascem em determinados meios, irão assimilar o que lhe for permitido. No caso da mulher, imaginem só alguém crescer ouvindo as frases do tipo: “mulher é assim mesmo”, “não faça isso “menino” isso é coisa de mulher”, “mulher fala demais”, “só podia ser mulher”, são pensamentos como esse que faz a violência e a discriminação de gênero se propagar e permanecer arraigado em nossas mentes, até os dias de hoje.
Homens e mulheres foram criados para viverem lado a lado, contrário à frase comumente dita e que se analisarmos um pouquinho, veremos o quão machista ela é: “Por trás de um grande homem tem sempre uma grande mulher”, ora, por que por trás, por que a mulher tem que vir sempre a trás e não ao lado, isso não é exagero, reflitam.
Há grandes diferenças entre homens e mulheres, concordo, mas diferenças biológicas, não em relação ao gênero, assim com há diferenças “biológicas” entres negros e brancos, entres pessoas dos países Orientais e Ocidentais, diferenças existem, mas o que temos que acabar é com a “discriminação” que é muito diferente de “diferença”.
Feliz o País que trabalha políticas públicas coibindo os maus tratos, a discriminação, a violência contra as mulheres. As mulheres são tão sofridas que aceitam qualquer migalha que lhe são dadas. E o são até por imposição de mecanismos internacionais, um exemplo disso é a Lei Maria da Penha que foi criada por imposição desses mecanismos internacionais de defesa dos direitos humanos, hoje a lei abrange apenas uma pequena parte do que deveria realmente abranger.
A violência, discriminação de Gênero existe em toda parte, certa vez em uma TV da França e outra da Itália, assisti a um programa policial, desses parecidos com os nossos, e a temática de ambos era a violência doméstica contra a mulher, ou seja, não é só um problema nosso, mas sim do mundo todo e foi visando estes problemas que foram criados os mecanismos mundiais de combate a preconceito, racismo, violência de Gênero, etc.
Mas uma coisa é certa, precisamos mudar a nossa forma de pensar e de ver as mulheres, pois somente assim viveremos um mundo melhor e desnudo de preconceitos e Violências.
Eduardo Dalla Costa, é advogado em Cuiabá.



AMOR VEM CÁ


Quero te mostrar
Meu pequeno mundo
Minhas rimas
Minhas sismas
Meu deserto encatado
Minha luz interior
Meu canto
Meu calor
Vem...
De príncipe, de sapo
De anjo, de santo
De homem animal
Chegue pertinho de mim
Encante-me
Cante-me
Canções de ninar
Beije-me
Deixe-me sonhar
Não, não fale nada
Permaneça assim calado
Deixe a esperança crescer
Minha vida aquecer
O pranto em prata
A dor que mata em mel
A solidão que força
Belisca a fé em brisa
A dúvida que prende


Laurita Costa Rosa, Contadora,
Conselheira do Conselho Estadual da Condição Feminina e da COPEL.




Tela de Eloir Jr.- Artista Plástico
A polaca dorme

Acordo e vejo Curitiba com seu sorriso cinza.
Molhada, a cidade aguarda-me com seu abraço frigorífico.
Encolhidos, os pássaros congelam o voo e vegetam no alto dos pinheiros.
Os cães latem na cadência da chuva fraca e contínua.
A polaca ainda não foi comprar broa de centeio na panificadora, dorme, dorme.
Perdeu a hora sob a colcha de retalhos amarelos imitando o Sol, quente, quente.




Tela de Eloir Jr.- Artista Plástico
A polaca canta

A canção da velha Polônia,Triste saudade. Saudade triste.
(Saudade que só seria possível
Em palavra nos corações lusitanos!).
Cante polaca, cante, cante
E alveje assim, em velha tábua,
Minha triste e encardida alma.
Ela lava a roupa e canta
Tela de Eloir Jr.- Artista Plástico
A felicidade é polaca

Doirada toda até nos mais escondidos pelos
Por sobre uma pele arrepiada em puro rosa,
És albinua sob a Lua,
És o lume do meu Sol,
És a minha lúdica polaca.
És aquela que grita lá da cozinha
Inda esfaimada, em pelo, sem pudor:
- Estou fritando "maréco", amor!
E doiras na intensa chama a ave
Que, na cama, darás a comer
A este poeta que sofre no torpor
Da anterior extenuante cruzada,
Mísero sarraceno sobrevivente
Do mais loiro dos incêndios.

José Fernando Nandé - Nascido em Maringá, jornalista em Curitiba, professor de Comunicação (Economia Aplicada), especialista em Economia do Trabalho. Livros publicados: Pó do tempo (poesia e contos); Ana-Sonha-Mundo e o arco-íris (infantil) e Beijos da Chuva (poesia), todos pagos do próprio bolso. Foi professor de Física, Química e Matemática nos colégios maristas Santa Maria e Internato Paranaense, em Curitiba. Nunca estudou para padre, mas é um estudioso do Latim Clássico. Nas horas vagas edita livros de terceiros, o último saiu pela Ediouro, a história do empresário dono da Racco Luís Felipe Hauen, "Vida à vida".

 

Mate Amargo. O sabor da história!
( carta aberta para um determinado professor)


Caro Professor.

Soube, através de meu filho, que em uma de suas aulas, o senhor teria com a severidade tão peculiar de nossos mestres, reproduzido em suas explanações os inúmeros eventos que se deram no sul do país, rotulando – os como se fazem costumeramente apenas como os “paulistas” os desbravadores e colonizadores por todo o sul, daqui ao Prata. Esquecendo que éramos nós os “paulistas do sul” ( até 1853). Escorregão. As escorregadelas de professores e historiadores sempre trazem seqüelas.
A botina da história do sul do Brasil, trás a lama dos caminhos abertos por curitibanos, caro professor. Desbravando, colonizando, enfrentando chuva, frio, geada, os índios e os castelhanos, com quem a nossa brava gente curitibana teve contato, e com quem iniciamos, da parte de Portugal, como changadores e tropeiros, a efetiva presença naquela região, onde ajudaríamos a fundar as primeiras povoações.
Partiu daqui navegando de Paranaguá, Domingos de Brito Peixoto, fundou Laguna e dali, percorrendo por terra foi até onde o mar encontra o “rio de la Plata”.
Manoel Lobo funda a Colônia do Sacramento em frente a Buenos Aires. Este pedaço da história remonta a 1680, ou seja a mais de 320 anos atrás.
Alguns historiadores teimam em escamotear . Querem nos fazer crer que a historia da colonização do sul do Brasil teria inicio ainda no século passado ou quando muito no final de 1700, esquecendo ou fazendo esquecer que foi a partir de Laguna, através de João de Magalhães, que era genro de Domingos de Brito Peixoto, aquele mesmo que como disse a instantes a trás que teria saído de Paranaguá, abrindo um caminho dali até o Prata, traria os primeiros muares lá de Sacramento. O problema é como trariam as bestas e mulas até aqui.
Por volta de 1716, vinte e um anos antes da estimulada imigração de famílias açorianas para a recém criada capitania de São Pedro do Rio Grande (1737), estes desbravadores fundam Tramandaí e na mesma época um outro membro da expedição que partira dos Campos Gerais de Corytiba, Cosme Velho se estabelece no que viria a ser o Viamão, tanto uma como outra lá no atual Rio Grande do Sul. Alias, chegando nossos irmãos curitibanos no alto da serra de Vacaria, viram os rios da planície e que teriam o formato de uma mão aberta. Daí o vi-a-mão.
Começavam os caminhos das tropas, o troperismo, de fundamental importância, na formação de nossa gente e da nossa cultura.
A partir de 1731, nossa economia centrou-se no comercio do gado que buscávamos nos campos de Sacramento e Viamão ou em Corrientes na Argentina e levávamos até Sorocaba.
Nós curitibanos, rasgamos todo o sul, abrindo estradas que saindo de Curitiba, nos ligava a Guarapuava, Palmas, Chapecó e ia diretamente a Corrientes. Sempre a cavalo, vestidos com bombacha, usando botas de couro cru e esporas de largas presilhas, às quais nós curitibanos chamávamos de “chilenas”, trazendo na cintura, a guaiaca e junto dela a faca e garrucha. Levávamos mate aos platinos e na volta trazíamos gado e muares. Levávamos nossa musica, nossa viola fandangueira atira colo nas tropiadas, a mesma musicalidade parte sonora de nossa cultura que espalhamos por todo o sul e que encantou o naturalista e escritor francês Saint Hilaire, que nos Campos Gerais de Corytiba, 1820 em uma das muitas festas que presenciou, tendo a oportunidade de ver “os convivas dançarem aos pares danças denominadas na região de anu e chula, em que os dançarinos fazem uma espécie de sapateado, dobrando os joelhos…” Bem, ai já é outra história que alguns professores e outros tantos historiadores esquecem ou fazem esquecer.
Queira desculpar o mal jeito professor, é apenas o jeito de um curitibano que busca reavivar a cultura de nossa terra e porque sabe que um povo que não tem memória não tem amanhã. E se o senhor permitir, ao sabor de nosso mate, volto ao assunto. Até logo.
Cláudio Ribeiro - Jornalista, escritor, compositor. Com formaçao em Direito, Diretor de Lazer e Politicas Públicas para a Juventude do Governo do Paraná, militante do Partido Comunista, foi o apresentador oficial da memoravel campanha civica e cultural "Diretas Já". Retempera a saúde de nossa alma brasileira com seu portal http://www.brasilcultura.com.br/


EU, EU MESMO E O BEBÊ-DIABO



Foi na década de 70. Pequeno, dei de cara com o “Notícias Populares” no varal da banca (era assim que lia-se jornal naquela época, ó internautas incautos): “Médico afirma: o Bebê-Diabo nasceu no ABC”. E não tinha nada a ver com greve de metalúrgico. Era o Tinhoso mesmo.
Antes, o filme “O Exorcista” lotara os cinemas. Minha mãe, acompanhada de meu pai e, se não me falha a memória, uma tia gorda que passava a temporada no quarto e sala em que nos entulhávamos, ficara horas na fila do Ipiranga para ver Linda Blair fazer xixi no tapete, vomitar verde e fazer fuc-fuc com a cruz. Em princípio disposta a enfrentar a turba, ela ficara macambúzia e sorumbática por motivo singelo. Afinal, não convencera meu pai a atravessar a rua até o Marabá, onde a jujuba era farta e a pipoca amanteigada. Que diabo!
As filas ganharam espaço no Jornal Nacional, então apresentado por Cid Moreira, que ainda alisava o cabelo com “Trim”. Em casa, minha irmã religiosa acendera uma vela e rezara até o fim da sessão de cinema, por volta das 11 horas da noite. Já acomodado no alto do beliche, ouvi o barulho da chave, seguido de sussurros. Foi só. Nunca houve comentários sobre o filme. Por sorte, conseguimos uma cópia do livro de William Peter Blatty e passamos noites em claro, aterrorizados, imaginando que o esfrega-esfrega no andar de cima era o desgracildo fazendo seus ruídos de praxe antes de se introduzir em nossa casa sem pedir licença (as revistinhas do Carlos Zéfiro vieram depois). Na semana seguinte, estávamos todos matriculados na primeira comunhão do Colégio Samaritano Coração de Jesus. Pura precaução.
Quando o “Bebê de Rosemary”, de Polanski, foi lançado, instalou-se o pânico. Novamente meus pais seguiram para o cinema acompanhados, se não me falha a memória, de uma tia gorda que permanecia em temporada paulista. Foi então que o “Notícias Populares” oportunamente inventou o bebê-diabo nascido na Região Metropolitana de São Paulo e tratou de assombrar a minha infância já devidamente assombrada por mendigos cegos, estandartes da TFP, urutus blindados, soldados da Força Pública, vick vaporub, dentistas de escolas públicas e pelo homem do baú da felicidade, que substituíra o homem do saco.
O bebê-diabo revigorou nossos medos e encarnou outros tantos. Como a série foi longa, sempre decorada com montagens toscas do chifrudinho, guardei os jornais por um bocado de tempo até que minha mãe resolvesse exorcizá-los. Não reclamei. Àquela altura, o NP já substituíra o filho do capeta nascido em bairro operário (ok, capitalismo, você venceu) por discos voadores, homens cobras, ratos gigantes e, horror dos horrores, a loira do banheiro, responsável pela continência urinária de uma geração inteira.

Pavor semelhante só ressurgiu anos mais tarde quando Tetê Espíndola cantou “Escrito nas Estrelas” num festival de MPB. Lembro que dormi com o abajur aceso durante uma semana. De novo, pura precaução.
MARCUS VINICIUS GOMES, Jornalista.


O Direito Tributário e o Estado Democrático de Direito

Antônio Thadeu Wojciechowski nasceu em Curitiba, em 1950. Tem mais de duas dezenas de livros, tanto em prosa quanto em poesia, publicados por seu próprio selo, a Lagarto Editores. Letrista e compositor, é autor de algumas centenas de músicas, algumas delas gravadas pelas bandas Beijo AA Força e Maxixe Machine. Também trabalha com publicidade e tradução. Informações via Travessa dos Editores.

 


A Constituição Federal promulgada em 1988 é a confirmação do novo Estado Democrático de Direito que atualmente rege o Brasil. Esta Carta Magna consolidou o Direito Tributário, repaginando os conceitos de igualdade e segurança jurídica dos cidadãos.
Desta maneira, neste Estado Democrático de Direito, a tributação está pautada em princípios não só formais, mas éticos e morais, respeitando a capacidade contributiva dos contribuintes e a dignidade da pessoa humana, de modo a garantir os valores democráticos, revelando uma tributação com fim ético.
No perfil democrático ora firmado, é possível a juridicização da ética no direito tributário. Esta concepção permite balancear os interesses individuais e os coletivos, assegurando as garantias fundamentais dos cidadãos e estabelecendo uma relação segura com o Fisco.
Assim, desrespeitar qualquer um dos principais princípios constitucionais, sejam de natureza administrativa ou tributária caracteriza grave ofensa à ética e ao sistema jurídico e qualquer conseqüência deve ser reconhecida como inválida e incapaz de gerar efeitos jurídicos negativos ao contribuinte.
O devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa, - princípios canonizados pelo art. 5º da Constituição Federal – asseguram tanto o exercício do direito de acesso ao Poder Judiciário como o desenvolvimento processual de acordo com normas previamente estabelecidas, onde se manifesta nitidamente a realização do atual Estado Democrático de Direito, da forma como preconizou a Carta Maior.
Portanto, hoje os valores constitucionais são sintetizados no princípio primordial da dignidade da pessoa humana. E na prática os contribuintes podem exercer a sua cidadania de modo pleno, através de Colegiados Administrativos ou com o garantido acesso ao Poder Judiciário. Tudo amplamente baseado nos critérios de justiça fiscal e igualdades tributárias, dotando-os de conteúdo material e não apenas formal, pois a preocupação com a ética e a moral passaram a integrar o Direito Positivo no Brasil, onde o ser humano é concebido como o centro de referência da ordem jurídica.

Claudia Arzua, advogada, especialista em Direito Tributário.


Que língua nós falamos?

Osni Gomes

Somos brasileiros, nossa língua não é brasileira, falamos português do Brasil. Entretanto em nosso vocabulário estão inseridos diversos outros dialetos. O jovem fala na gíria, o economista tem o seu “economês”, o advogado tende ao “jurídico”, os médicos até distribuem um manual básico para que se entenda o que falam. Isso para não comentar sobre a informática, que além da linguagem técnica, descambou para uma mutilação inconcebível. O imediatismo e a necessidade de simplificar as coisas contribuem para tornar o nosso vocabulário cada vez mais complexo e longe de suas origens. Os jovens, especialmente, quando escrevem, já se acostumaram a suprimir os acentos e a abreviar os termos, como o vc, tb, cf e por aí afora.
Não tenho a pretensão de entrar aqui na questão técnica, mas de fazer as minhas observações sobre o excesso de desvios que cometemos no dia-a-dia. Reconheço que os meus limites de vocabulário e a falta de um estudo mais aprofundado da Língua Portuguesa também me levariam a cometer erros. No entanto, como jornalista, que todos os dias depara com uma infinidade de termos usados, acho que devo ter uma preocupação redobrada.
Um simples passeio pela cidade já nos faz refletir sobre os mais diferentes comportamentos lingüísticos. Estão nas placas, nos anúncios, na parafernália de reclames que ficam espalhados pelas ruas. São sinais, termos, letras, símbolos e diferentes formas de dizer as coisas.
Traduzir tudo isso para o bom português, não precisa esbarrar no preciosismo do professor Cipro Neto, nem chegar ao rebuscado exagero dos intelectuais, mas não pode descer ao extremo dos “manos” das nossas esquinas e orlas marítimas. A sociedade deveria encontrar um meio termo para tudo isso. E aí está o grande papel da mídia, que vai um pouco além do jornalismo.
No jornalismo o que se busca é a linguagem do povo, sem “tucanar” termos, como diz o José Simão, nas suas apimentadas e satíricas colunas.
Que tal se os professores simplificassem, por exemplo, o que eles chamam de “conteúdo programático”, os médicos não escondessem a dor de barriga nas “cólicas abdominais”, os técnicos de informática parassem de “deletar” e simplesmente apagassem de suas memórias os termos importados. E que desindexação, o fluxo cambial, o mercado acionário e outros do “economês” fossem traduzidos. Que as liminares, “data vênia”, “habeas-corpus” ou ações cautelares do dicionário jurídico atingissem a grande massa popular, com termos mais cabíveis.
Dura missão do jornalista! Fugir desse corporativismo classista de alguns setores, preocupados em sustentar um “status” (para usar um termo deles) que garanta uma espécie de “pulo do gato”. Daí aquela indisfarçável máxima: “é preciso procurar um profissional da área”. Só que isso, sempre, vem acrescido de um alto custo, duro de ser pago por uma sociedade feita de classe média, onde a média está sempre mais próxima da pobre. E muito mais distante da classe alta, patrocinadora da “verborragia” que temos de engolir.
O corporativismo é uma espécie de insegurança. Logo somos uma sociedade insegura, ainda em busca de nossos ideais. Tolo é aquele que pretende aparentar conhecimento, escondendo para si, o que deve ser de domínio público.

Osni Gomes (osnijor@terra.com.br) é jornalista e blogueiro.
Texto publicado em 25 de maio de 2005, em “O Estado do Paraná”



Considerações acerca das contas eleitorais
e do artigo 30-A


I – Princípios norteadores

O Direito Eleitoral é um dos ramos do direito brasileiro que mais se modificou nos últimos anos, até mesmo pela necessidade de regulamentar, quase que anualmente, a realização de eleições alternadas nas três esferas da federação, majoritárias e proporcionais. E ninguém desconhece que, embora o exercício da democracia não se esgote no sufrágio, este é, sem dúvida, sua manifestação mais efervescente.
Nessa linha, as contas de campanha vêm sendo objeto de atenção especial da Justiça Eleitoral já há algum tempo. A própria edição da Lei n.º 9.504/97, com uma série de normas de arrecadação e gastos eleitorais, já destacava a importância de se clarificar a parte financeira das campanhas, visando coibir o abuso de poder econômico e o oferecimento de benesses ao eleitor em troca do voto.
A partir de 2004, as Resoluções que norteiam as eleições editadas pelo Tribunal Superior Eleitoral a cada ano foram paulatinamente reforçando a análise das contas como meio de se garantir a lisura da eleição. Tanto que as Leis n.º 11.300/2006 e 12.034/2009 encamparam algumas das inovações trazidas pelo TSE nesse seara.
Porém, deve-se destacara que não se pode restringir a atuação da Justiça Eleitoral a órgão legitimador da administração financeira das campanhas, especialmente as vencedoras. A prestação de contas deve refletir integralmente a campanha eleitoral, sem eufemismos ou interpretações.
O princípio básico que deve nortear as contas de campanha é o da verdade material. Ou seja, deve refletir o que realmente foi empregado, tanto em relação aos valores arrecadados quanto aos gastos efetuados, funcionando a prestação de contas como instrumento de moralização e fiscalização das campanhas eleitorais.
Por outra vertente, é essencial ao exercício livre do sufrágio que o eleitor possua todas as informações sobre aquele candidato em quem pretende depositar o voto. Assim, o princípio da transparência também deve nortear as contas de campanha, especialmente no que diz respeito às fontes de financiamento, já que é indiscutível o comprometimento entre financiador e financiado.
A necessidade de controle do abuso do poder econômico nas eleições constitui-se em uma preocupação mundial, de modo a observar-se previsão de normas destinadas ao controle da movimentação econômica de partidos e candidatos em campanha e prestação de contas na legislação de diversos Estados, a exemplo do Canadá, Espanha, França e Alemanha.
No círculo dessas idéias a serem seguidas pelo Poder Judiciário, deve preponderar o entendimento de que a carga valorativa a ser prestigiada nas relações jurídicas eleitorais, por influência das circunstâncias que estão presentes na situação em análise, deve ser a moral legitimada pelo próprio Direito, isto é, a que esteja contida na coerção de uma norma reconhecida como existente, válida, eficaz, efetiva e em harmonia com os desígnios da Constituição Federal.
A crescente conscientização da sociedade no sentido de ver obedecido o princípio da moralidade nas relações jurídicas de qualquer natureza, motivou, em face do grave e explícito comportamento de alguns candidatos em relação à arrecadação de valores e aplicação de recursos, o estabelecimento de regras mais rigorosas acerca da administração financeira de uma campanha eleitoral.
Mórton Jacinto Reis, Juiz de Direito, em excelente artigo intitulado “Mercadores de Votos, cerca-igrejas e cacetistas , faz a seguinte explanação:
“Por mais de 500 anos, um precário Direito Eleitoral vem teimando em tentar provar aos brasileiros que democracia é assunto sério demais para que dele possam cuidar as pessoas do povo.

(...)

São daquela época as ‘eleições a bico de pena’, onde quem de fato escolhia os novos mandatários não eram os eleitores, mas os mesários que, sozinhos ou com o concurso de falsários profissionais, elaboravam as atas reveladoras do ‘resultado’ da eleição.

(...)

Se mesmo após a utilização de alguns ou de todos esses mecanismos o resultado eleitoral não fosse o esperado, restavam outras alternativas: aos da situação, cuja eleição tão esperada não sobreviera, aplicava-se o "esguicho" (ou complementação fraudulenta da votação faltante); aos oposicionistas mais indesejáveis restava a "degola" (ou a pura e simples retirada de seus nomes da lista dos eleitos).
Não sem muitas baixas (o combate à fraude eleitoral era uma das principais bandeiras de muitos dos movimentos contestatórios da década de 20 e da própria Revolução de 30), surgiu o Código Eleitoral de 1932 e, com ele, a Justiça Eleitoral.
Desde então conseguimos, entre ditaduras e leis eleitorais casuísticas excludentes, trilhar alguns passos rumo ao momento atual, em que sobrepaira a possibilidade de uma melhor definição dos rumos de nossa democracia.

(...)


II – Histórico recente

A prestação de contas das campanhas eleitorais no Brasil vêm se tornando mais rigorosa a cada eleição, acompanhando a alteração de pensamento dos Tribunais em relação ao abuso de poder econômico na busca do voto.
Nessa linha, tivemos a edição das Leis n.º 9.840/99 e n.º 11.300/2006, que estabeleceram a punição de cassação de registro e diploma nos casos de captação ilícita de sufrágio, bem como a inclusão do artigo 30-A, acerca da arrecadação e dos gastos irregulares de campanha, com aplicação da mesma sanção.
O cerne de toda a questão relativa às finanças de campanha é, indiscutivelmente, a corrupção. Busca-se, com o rigor em relação às contas eleitorais, evitar-se a corrupção. E foi com esse foco que o TSE, já na Resolução que regulamentou as eleições gerais do ano de 2002, estabeleceu a possibilidade de propositura de Ação de Investigação Judicial Eleitoral, Recurso Contra Expedição de Diploma e Ação de Impugnação de Mandato Eletivo quando da desaprovação de contas de campanha, quando identificado o abuso de poder econômico, repetindo tal determinação na Resolução TSE 21.069, que atendia as eleições municipais de 2004.
Nas eleições gerais de 2006, a Resolução TSE 22.250, na linha de tornar mais rígidas as normas eleitorais, estabeleceu que, além da possibilidade de Investigação Judicial Eleitoral no caso de desaprovação de contas, a não apresentação de tais contas implicaria na impossibilidade de obtenção da certidão de quitação eleitoral (documento indispensável para o registro de candidatura) durante o curso do mandato ao qual concorreu o candidato.
Ou seja, aquele que não apresentasse suas contas – e tal situação muito ocorria já que não existia nenhuma forma de punição para o candidato inadimplente – não poderia registrar candidatura durante quatro anos.
Além dessa penalização, também incluiu a vedação dos partidos políticos assumirem as dívidas de campanha não quitadas de seus candidatos, com o objetivo de tornar mais transparente a movimentação financeira.
Porém, no ano de 2006 tivemos eleições gerais no país, onde os principais candidatos a Presidente da República deixaram enormes dívidas eleitorais, impossíveis de ser quitadas, o que levou o TSE a relativizar a aplicação da proibição que sua própria Resolução determinou, qual seja, a assunção de dívidas eleitorais pelos partidos políticos, interpretando-a no sentido de vigência apenas a partir das eleições municipais de 2008.
Então, no ano de 2008, através da edição da Resolução 22.715, tivemos o regramento mais rígido no que dizia respeito às contas eleitorais. Nessa Resolução, além da vedação de assunção de dívidas pelos partidos e a impossibilidade de obtenção de quitação eleitoral para aquele que não apresentasse suas contas, também o candidato que tivesse suas contas desaprovadas ficaria impossibilitado de obter a quitação eleitoral durante o curso do mandato ao qual concorreu. Nesse momento, o Direito Eleitoral Brasileiro chegou o mais próximo da efetivação dos princípios da verdade real e da transparência, tendo em vista que o candidato que arriscasse maquiagem financeira em seus números, ou tivesse ainda utilizado recursos não contabilizados – caixa 2 – ficaria inelegível por 4 anos, no mínimo.
As eleições municipais do ano de 2008 foram as que mais geraram discussão, interesse e receio por parte dos candidatos no que tange à prestação de contas. E o motivo é óbvio: a impossibilidade de reeleição por conta da ausência de quitação eleitoral.
O Poder Legislativo e o TSE, a partir da discussão acerca da verticalização de coligações, vem estabelecendo uma espécie de competição acerca da elaboração e interpretação das normas eleitorais. A Lei 12.034/09 é uma prova disso. Em que pese ter incorporado a maioria das disposições previstas nas Resoluções do TSE das últimas três eleições, eliminou justamente aquelas que davam força à prestação de contas da campanha eleitoral.
Além do abrandamento das regras relativas à prestação de contas partidária, não incorporou ao seu texto a grande inovação da impossibilidade de obtenção de quitação eleitoral para aqueles candidatos que tivesse contas desaprovadas, bem como liberou a possibilidade do partido político assumir as dívidas de campanha de seu candidato
Assim sendo, qual é a razão que levará o candidato a tratar sua prestação de contas com a seriedade e rigor que ela necessita, se não existe nenhuma sanção àquele que possui suas contas desaprovadas? Na prática, a aprovação e desaprovação são equivalentes no texto da Lei 12.034, que alterou o regramento da Lei n. 9.504/97. Assim, temos grande retrocesso na transparência tão necessária aos valores recebidos e aos gastos realizados pelos candidatos e partidos nas eleições, condição essencial ao exercício livre da cidadania.
Estabeleceu-se grande celeuma acerca da impossibilidade de se obter a quitação eleitoral por desaprovação de contas, tendo em vista entenderem alguns doutrinadores que tal sanção seria nova forma de inelegibilidade. Ocorre que tal tese não se sustenta, pois a impossibilidade de se obter a quitação eleitoral não é sanção de inelegibilidade, mas sim ausência de condição de elegibilidade, entendimento esse pacificado pelo TSE.

III – O restrito alcance do artigo 30-A e a Lei Complementar 135/2010

Além das grandes discussões acerca da efetividade da prestação de contas, a Lei 11.300/2006 (posteriormente alterada pela Lei n.º12.034) incluiu na Lei das Eleições o artigo 30-A, que prevê expressamente a cassação do registro ou do diploma do candidato que praticar condutas em desacordo às normas relativas à arrecadação de campanha e aos gastos eleitorais.
Acerca do alcance do artigo 30-A nos cabe algumas considerações. Quando de sua inclusão na Lei, baseado em projeto de iniciativa popular, tinha como objetivo ser rápido e efetivo em extirpar do cenário eleitoral aquele candidato que cometeu qualquer tipo de abuso ou falsidade na administração financeira de sua campanha. Tanto assim era que sua sanção é a cassação do registro e do diploma, sem imposição de inelegibilidade, o que por si só afastaria a necessidade de se aferir potencialidade à conduta irregular, capaz de alterar a igualdade de oportunidades entre os candidatos em uma eleição.
Inicialmente, ressalte-se que o alcance do artigo 30-A é absolutamente restrito; a prestação de contas, ato meramente formal, não fornece dados ou informações que possam ser analisados pelo artigo 30-A. Por primeiro, porque as informações ali incluídas são de responsabilidade do próprio candidato, que certamente não incluirá um eventual caixa 2 de campanha ou qualquer gasto em desacordo com a legislação eleitoral, em que pese o princípio da boa fé.
Por segundo, qualquer irregularidade financeira que possa embasar a Representação do artigo 30-A apenas chegará ao conhecimento dos legitimados ativos por denúncia ou peculiaridades do caso concreto. O caso do ex-Deputado Federal Juvenil Alves é pedagógico para entendimento das dificuldades de delineamento do art.30-A.
No citado precedente , o então deputado teve um de seus escritórios alcançados por um mandado de busca e apreensão, resultante de operação específica da Polícia Federal que não tinha vinculação com a campanha eleitoral na qual ele havia concorrido, onde foram apreendidos computadores e documentos que demonstraram a existência de caixa 2, recursos recebidos de fontes vedadas, bem como gastos irregulares de campanha. Apenas dessa forma chegou ao conhecimento do Ministério Público Eleitoral as impropriedades perpetradas pelo citado candidato, que só assim pode ser Representado e cassado.
Da mesma forma, grande parte dos casos de Representação do artigo 30-A tiveram como fonte de provas denúncias acerca de Caixa 2 ou gastos irregulares, em sua maioria de ex-colaboradores das próprias campanhas e já passado tempo razoável da eleição.
Em terceiro, a exigência de proporcionalidade entre o ato ilícito praticado e sua importância no conjunto da administração financeira da campanha torna a efetivação do artigo 30-A de difícil realização. Os próprios Tribunais Regionais Eleitorais tem dificuldade em delimitar o alcance e as formas de comprovação da previsão do referido artigo.
A Lei Complementar 135/2010 – chamada de Lei dos Fichas Limpa – só tornou a situação ainda mais grave, ao estabelecer, além da perda de registro ou diploma já prevista em Lei, inelegibilidade de 8 anos para aqueles que forem condenados por arrecadação e gastos irregulares de campanha.
No Direito Eleitoral, as situações de abuso de poder podem implicar cassação de registro ou diploma e imposição de inelegibilidade, mas sempre exigiram do ato abusivo praticado potencialidade suficiente para alterar a igualdade de oportunidade nas eleições. Sua caracterização é mais complexa e, por tal razão, sua sanção é mais grave.
Com a inclusão dos ilícitos relativos à administração financeira das campanhas eleitorais no rol gravíssimo estabelecido pela Lei Complementar 135/2010, a tendência doutrinária e jurisprudencial é estabelecer a necessidade de potencialidade – que a lei chama de “gravidade do ato” – para aplicação da sanção, o que desvirtua o objetivo inicial da inclusão do artigo 30-A (e também do art.41-A) que era a subtração rápida e eficaz do candidato infrator.
Por derradeiro. A delimitação do prazo de 15 dias após a diplomação para proposição da Representação do artigo 30-A o tornou praticamente inaplicável. E tal fato não está vinculado à prestação de contas propriamente dita, já que para fundamentação dos ilícitos do 30-A sequer necessitamos de desaprovação das contas, mas sim à dificuldade de comprovação das práticas ilícitas previstas no artigo.
Assim, o entendimento do Tribunal Superior Eleitoral quanto a inexistência de prazo decadencial para propositura da citada Representação – o prazo seria o fim do mandato – nos parece a tese mais correta, como se aplicava até a edição da Lei n.º 12.034. Mesmo porque o transcurso de prazo entre a eleição e o aparecimento de indícios e provas acerca do 30-A é sempre bem mais dilatado que os míseros 15 dias de prazo previstos na Lei.
Tendo em vista tal quadro, a importância da existência de sanção para aqueles que tiverem contas de campanha desaprovadas é essencial; o receio da punição – ausência de quitação eleitoral durante o mandato ao qual concorreu – restabeleceria a relevância da prestação de contas como forma eficaz de combate ao abuso nas eleições.
No que diz respeito às finanças de campanha, a Lei Complementar n.º 135/2010 traz, ainda, mais uma novidade aterradora: a sanção de inelegibilidade, também por 8 anos, para as pessoas físicas e para os administradores de pessoas jurídicas que doarem ilegalmente para as campanhas eleitorais, independentemente da aplicação das punições previstas no artigo 81 da Lei n.º 9.504/97.
Inicialmente, cabe ressaltar que a Lei não define o que seria doação ilegal; seria aquela proveniente de caixa 2? Ou aquela que excedeu os limites previstos na legislação? Ou, ainda, recebida de alguma das entidades proibidas de doar, ainda que em valor irrisório?
Não nos parece essencial a definição do que seria a doação ilegal, posto que qualquer forma que contrarie as disposições da legislação assim se enquadrará. Mas indiscutível é a necessidade de incorporação dos princípios da razoabilidade e proporcionalidade na análise do caso concreto para que se aplique a sanção de inelegibilidade, que deverá ficar restrita aos casos de abuso com potencial gravoso suficiente para alterar a igualdade de oportunidades na eleição.
E nesse ponto vemos o que uma “colcha de retalhos” legal acaba ocasionando: para que se possa cassar o registro ou diploma do candidato que arrecadou ou gastou ilegalmente na campanha eleitoral, o prazo é de 15 dias a contar da diplomação. Já para os doadores de campanha – pessoas físicas e jurídicas de doarem acima do limite previsto em lei – o prazo para a Representação do artigo 81 da Lei n.º 9.504/97 (que aplica multa pecuniária e proíbe as pessoas jurídicas de contratarem com o poder público) é o fim do mandato. Caberá ao Tribunal Superior Eleitoral aparar as injustas arestas.

Carla Cristine Karpstein – Advogada, Especialista em Direito Eleitoral, Vice-Presidente da Comissão de Direito Eleitoral da OAB/PR; professora da Pós Graduação de Direito Eleitoral da UNICURITIBA ; professora da Escola da Magistratura e da Escola Superior de Advocacia da OAB/PR.