quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Morre Virgínia Leite. Ou, morre Santa Leite.

Faleceu hoje a enfermeira Virgínia Leite. Uma ENFERMEIRA que foi para a guerra. Conhecida em Irati como Dona Santa. A Tia Santa de queridos amigos meus. Viveu com bravura seus 95 anos.
Seu velório será na Casa do Expedicionário e o enterro no Cemitério Água Verde dia 06 às 10:30 da manhã.
Irati e suas Santas...

Na Revista Ideias de maio/2011 foi publicada esta bela matéria, feita por Sarah Corazza.

Os olhos que viram a guerra



A iratiense Virgínia Leite conta como foi ser enfermeira da FEB na Segunda Guerra Mundial


Quando cheguei ao apartamento de Virgínia Leite, conhecida como Santa Leite, não sabia o que esperar. Apesar da simpatia ao telefone, ela havia deixado claro que sua memória não estava muito boa. Pediu que ligasse antes para que ela tivesse tempo de se arrumar, já que a artrose a impede de fazer movimentos rápidos. Assim fiz.
Quando interfonei, dona Terezinha abriu a porta. Ela é acompanhante de Virgínia, a enfermeira da guerra, solteira, que hoje tem medo de ficar sozinha em casa, depois que uma conhecida morreu e só foi encontrada pela família dois dias depois. “Agora tenho a Terezinha que fica comigo durante a semana e a outra vem nos fins de semana. Só saio de casa para ir ao médico”, confidencia.
Ao entrar no pequeno apartamento, Virgínia está na sala, sentada no sofá e demonstrando toda a sua fragilidade no alto dos seus 94 anos de vida. Na sala, a enfermeira está sentada num canto do sofá, com as duas bengalas ao lado. À sua frente, uma pequena prateleira com algumas das homenagens que recebeu pelo trabalho realizado na II Guerra. Atrás da porta, um banner, usado em uma homenagem prestada às grandes mulheres paranaenses pelo Museu Paranaense. Assim que me convida para sentar avisa que no dia anterior, quando saiu de uma consulta médica, entrou no táxi e havia esquecido o endereço de casa. “Por isso tenha paciência, minha memória não está muito boa. Faz 66 anos que voltei da guerra”. Dei um sorriso receoso, com medo de ser verdade essa falta de memória e a minha matéria não sair da pauta. Mas, para a minha surpresa, quando ela começou a falar, notei que a memória mais antiga não havia sido afetada em nada pelas ‘amnésias repentinas da idade’.
A primeira coisa que fez questão de me contar foi que das oito enfermeiras paranaenses que fizeram parta da Força Expedicionária Brasileira – FEB – apenas ela ainda está viva. Depois me confidencia que no total foram 73 enfermeiras e que além dela, apenas duas que moram no Rio de Janeiro e duas que moram em Minas Gerais continuam vivas. Todas participaram voluntariamente de um curso de enfermagem oferecido pela Cruz Vermelha e pouco depois partiram para a II Guerra Mundial.
“Meu irmão mais velho participou da Revolução de 24 e o outro da segunda revolução de 1930. E eu senti que precisava fazer alguma coisa para mudar o horror da guerra que acompanhávamos pelos jornais e pelo rádio. Era professora e sem saber ao certo o que vinha pela frente me alistei no curso de enfermagem. Mandaram ficar com a mala pronta e eu fiquei”, recorda.
Virgínia conta que ficou sabendo da sua convocação pelo seu irmão, que veio tirar satisfação de por que ela havia se alistado sem pedir sua autorização. Mas ela afirma que seus pais estavam sabendo e para ela isso já bastava. Assim, a caçula da família Leite, largou seu trabalho de professora em Irati e foi para o Rio de Janeiro. Depois disso, não sabia mais qual seria seu destino. “Quando cheguei ao Rio me deu medo. Subi a escadaria da Penha e pedi a Nossa Senhora que permitisse que eu encontrasse a minha família bem quando retornasse ao Brasil. Não pedi pela minha saúde, mas pela saúde dos meus pais e irmãos”. Neste momento, ela abaixa a cabeça e mostra toda sua emoção. Nos seus olhos dava para ver que aquelas cenas ainda eram nítidas em sua memória.
Virgínia contou que quando chegou ao Rio de Janeiro, acompanhada pelas outras sete enfermeiras paranaenses, ocorreu a primeira baixa na equipe. Uma das enfermeiras foi atropelada e machucou a perna, por isso nem chegou a embarcar para a Itália. Desembarcaram em Nápoles e lá encontraram uma cidade totalmente destruída. “Ali comecei a ver e vivenciar o horror da II Guerra”, afirma. Depois seguiram de navio até o hospital em Livorno, onde trabalhou a maior parte dos oito meses que participou da guerra.
Ela relembra que assim que entrou no hospital, um soldado deitado em uma maca pegou sua mão e começou a beijar. Ela levou um susto e o combatente explicou que era ótimo escutar a voz de uma enfermeira brasileira, já que antes quem realizava este trabalho eram as americanas e eles não conseguiam se entender. Neste momento seus olhos azuis encheram de lágrimas novamente. Achei inacreditável aquela senhora, cheia de rugas, com seus cabelos brancos e apesar de sua aparente fragilidade, ter passado por tudo isso sem perder a delicadeza.
Virgínia também contou que algumas enfermeiras voltaram antes por não terem suportado o terror da guerra. “Um dia um dos comandantes me chamou e disse que eu também estava na lista para voltar. Levei um susto, estava bem, mas o problema é que não saía da zona hospitalar, nem nos meus momentos de folga”. Inventava que tinha parentes doentes e conhecidos para permanecer na enfermaria. “Achei que ninguém tinha notado, porém me enganei”, conta. Neste dia o comandante disse que estava indo ao clube e a convidou. Ela aceitou o convite, mas explicou que não teve nenhuma segunda intenção. Reparei que ficou levemente ruborizada ao contar esta história.
Depois a enfermeira pediu à sua acompanhante que buscasse um álbum de fotos. As medalhas ela não iria mostrar, havia escondido “porque tenho muito ciúmes das minhas coisas da FEB”, explicou e havia esquecido onde guardara. Mas para as mais de 400 fotos que estavam guardadas cuidadosamente num grande álbum de capa vermelha, sua memória estava ótima. Lembrava o nome da maioria das pessoas e em seguida falava “infelizmente já morreu também”. A maioria das fotos era referente a encontros realizados depois do término da II Guerra. Grande parte era de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, e depois de apontar para elas, olhava para mim e para o fotógrafo e dava uma risada marota acrescentando “esta é de Campo Grande também”. Nestes momentos parecia uma menina, todavia bastava lembrar de todo o horror que viveu que seus olhos voltavam a ficar marejados e o semblante triste.

RETORNO

Quando retornou ao Brasil, voltou ao seu trabalho de professora em Irati. Mas meses depois as consequências da guerra surgiram. Virgínia teve uma crise nervosa e alguns anos depois uma queda, que resultou em uma fratura na coluna. O incidente lhe rendeu nove meses de internação em três hospitais. Dois em Curitiba e outro no Rio de Janeiro. O período internada foi quase tão difícil quanto o na guerra. “Quando voltei para o Paraná, só de ouvir a palavra hospital já começava a chorar”, lembra.
Depois deste tempo difícil, Virgínia foi reformada, deixou Irati e veio morar em Curitiba. Aqui, se dedicou integralmente a Legião Brasileira do Expedicionário. Até hoje sempre que pode e a saúde contribui participa das cerimônias. Homenagens ela recebe sempre. Todo comandante que assume o Exército em Curitiba faz questão de visitá-la e ouvir um pouco de suas histórias.
Depois de quase duas horas de conversa digo que preciso ir embora. Confesso que o tempo passou rápido demais, a vontade era de ficar mais e continuar conversando, tendo uma verdadeira aula de história. De repente ela diz que vai buscar alguma coisa no quarto. Pergunto se quer ajuda para se levantar, porém Virgínia me explica que gosta de fazer as coisas ao seu tempo. Conta até três, impulsiona e se levanta. Pega suas bengalas posicionadas a seu lado e entra em um dos seus cômodos. Volta de mãos vazias. Me despedi sem saber se ela queria realmente me mostrar mais alguma coisa e não achou ou simplesmente esqueceu. Agradeço sua disposição em nos receber em sua casa e de nos contar tão pacientemente sua história. Ela me convida para voltar e passar uma tarde com ela para que possa me mostrar tudo o que tem da época da II Guerra. Vou embora com vontade de voltar. Se vou voltar, não sei. Indico a todos que querem aprender um pouco sobre a vida e sobre a nossa história sentar por algumas horas e escutar o exemplo de vida desta enfermeira, que apesar de todos os horrores que presenciou na guerra, não perdeu a doçura.

3 comentários:

  1. Que texto lindo, Cláudia!
    Conhece-se um pouco da História desta mulher guerreira através de você. É um presente para nós, iratienses.
    Parabéns!
    Maria Havresko Molossi.

    ResponderExcluir
  2. Fiquei maravilhada.Em saber dessa história de vida linda e ao mesmo tempo com tantos sofrimentos...Nem precisa dizer que ela está junto ao PAI, por tantas doações a seus irmãos na guerra...Abraços!!!Cristina P.C. Lima.

    ResponderExcluir
  3. José Carlos Leite Junior9 de janeiro de 2012 15:31

    Claudia.

    Todos os artigos que li, destacando o seu na expressão "Irati e suas Santas", espelham com muita nitidez o quanto Virgínia Leite era respeitada e admirada. Exemplo de mulher de fibra, de personalidade forte, cumpriu suas missões de forma marcante para muita gente.

    Deixou-nos com absoluta serenidade, aos 95 anos.

    Em seu guardamento não senti nem vislumbrei os sentimentos de pesar e de dor na forma que habitualmente acontece em tais ocasiões, pois havia ali a convicção de uma longa e intensamente produtiva vida que encerrava um ciclo.

    Morreu a Expedicionária e Tenente do Exército Brasileiro Virgínia Leite que um dia partiu para uma Guerra Mundial como Enfermeira voluntária. Porém, eternizou-se em nossos corações, vivíssima, a Santa Leite, Tia Santa de incontáveis sobrinhos, que finalmente se tornou atemporal. Foi assim que a senti por décadas: uma pessoa fora do domínio do tempo. E isto desde os tempos do Grupo Escolar Duque de Caxias, em Irati, quando via chegar aquela mulher trajando farda, cheia de medalhas, para proferir alguma palestra: "Olha lá, aquela é minha Tia...".

    Me permita transcrever aqui o verso pelo qual a Professora Carmen Rigoni expressou seu pensamento em relação à sua amiga de longa data Virgínia Leite:

    "Heroína palavra singela
    Para contar vossa infinita glória
    Não há expressão, por mais grandiosa e bela
    Que possa vos fixar na História."

    ...

    ResponderExcluir