sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Existencialismo, por Almir Feijó.


Eu morava em Sampa, trabalhava na Standard, Ogilvy & Mather e dormia num apart hotel na Frei Caneca quase ao lado do Beco. Era cheio de marra. Três vezes por semana passava na boate pra pegar umas minas e tomar bourbon. Muitas vezes, por absoluta falta de opção, ficava só na bebida. E de 10 em 10 dias, antes de ir para a agência, de manhã, batia o ponto numa tabacaria da São João. Era a única da cidade em que era possível comprar 'Gauloises', o maior estoura-peito da indústria nicotínica mundial. Acontece que os personagens de Truffaut e Goddard - além, é claro, do meu ídolo Camus - fumavam. Muito. 'Gauloises'. Sem filtro. E eu achava o maior charme. De forma que, muitos anos depois, eu era um existencialista redivivo. Só faltava o sobretudo com a gola levantada em pleno verão. Havia também a ausência de um pouco de tristeza, coisa que não combinava muito comigo mas, para compor o personagem, era absolutamente necessário. Por isso a glória foi completa quando uma das moças da noite que frequentavam o Beco me achou parecido com 'um artista de cinema'. Seria Belmondo em 'Acossado'? Não. Então Leaud? Cassel? Também não. Já sei, já sei! - ela exclamou.
- Você é a cara do David Cardoso em ''A Noite das Taras - 2'.
Mó mico. Jamais voltei a botar um 'Gauloises' na boca. Aposentei aquela bobagem de existencialismo.

Almir Feijó é Publicitário especializado em Marketing Político, Jornalista, autor de 'Descríticas' (2001) e 'Descríticas - 316 filmes' (2005).

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