domingo, 8 de janeiro de 2012

Dizzy, o cão. Por Almir Feijó.


Eu queria falar sobre o Dizzy, meu rottwailer, porque ele andou frequentando muito meus sonhos mas, depois que o psicanalista explicou qual era o barato dele no subconsciente, sumiu de vista e eu nunca mais pude levá-lo pra passear por Santa Felicidade. Era um ritual. Caminhávamos por uma, duas horas, e depois ele sentava-se a meu lado no estúdio de frente para o bosque de araucárias que havia nos fundos da casa. E ficávamos ali por longo, longo tempo, numa 'vibe' de completa melancolia. Eu, escrevendo platitudes no computador. Ele, me protegendo. Os dois ouvindo jazz. Pra mim, Charlie Parker. Pra ele, claro, Dizzy Gillespie. Por que claro? É que Dizzy tinha ouvido. Presumo que se tratava de um cão sofisticado porque, se botasse na caixa outro CD - mesmo um Miles Davis - ou não fosse justo no rodízio, ele começava a chorar baixinho, manhoso, tipo alma ferida, como se estivesse ouvindo um soul de Bessie Smith. O lamento ia aumentando, subia de tom, de repente eram latidos intercalados com um ranger de dentes assustador. Eu estava mal, um longo relacionamento estava acabando, ele sacava minha tristeza. Eu, solidário com a solidariedade dele, chorava também. Até que chegou o dia da separação. Ninguém queria ficar com ele. Rottwailers são cães territoriais, muito apegados ao dono. E Dizzy ainda tinha um problema: era fã de jazz. Um sertanejo colocado no player num mau momento poderia provocar uma chacina horrenda. Mas achamos uma alma bondosa, um advogado, e lá foi o Dizzy. Nunca mais voltei a vê-lo. Só nos sonhos. Continuávamos a andar por Santa Felicidade. Eu comprava a ração e punha no pratinho dele. É um 'deslocamento', explicou o dr. Wilson. 'Você usa a figura de seu cachorro para recordar-se do casamento que terminou'. Entendi. Fazia sentido. Todo fim de casamento é foda. Três anos depois, o amigo que adotara Dizzy morreu. E, algum tempinho mais tarde, o próprio Dizzy se foi, moço ainda. Estava com a alma despedaçada. Parar de escutar jazz foi demais para um cara rebuscado como ele.
Almir Feijó é Publicitário especializado em Marketing Político, Jornalista, autor de 'Descríticas' (2001) e 'Descríticas - 316 filmes' (2005).

2 comentários:

  1. Muito bonito. Parabéns!

    Almir.

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  2. Tive um desses que ouvia AC DC. Grande amigo que sinto falta até hj. Morreu faz uns 10 anos...

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