
Alicinha era muito foda. Eu trabalhava na Ogilvy, em Sampa, e ela noutra agência ali perto, uma multi, fazia pesquisa de produto, qualitativa e tal. 'Você tem que achar o núcleo. Descobrir onde está o epicentro, entendeu?', ela vivia dizendo pra todo mundo. Não estava falando de trabalho. Não percebi o que era. Ninguém nunca entendia a Alicinha. Sempre voando. Sempre atrás de alguma coisa secreta, desviando de alguma espécie de abismo. Transamos e saquei que era bissexual, gostava pra caramba de 'Four Roses', o bourbon que John Huston usava pra se embriagar, e amava 'Gloommy Sunday' com a Billie. 'O núcleo, cadê o núcleo?' Ninguém entendia. Então provoquei ela, numa espécie de teste. Pus 'Meu ódio será sua herança', do Sam Peckinpah, num VCR pra ela assistir. Já tinha visto - adorava. Mandei 'Cartas a um jovem poeta', do Rilke, pelo correio. Respondeu: 'Brigada. Agora tenho dois'. E, finalmente, a prova do Jack Daniels. Eu era gamado nessa birita, um uísque americano, de milho, frequentemente chamado de bourbon. 'Não gosto. Prefiro Four Roses'. Gotcha! Peguei a menina. Agora eu estava diante do dilema que levou Vieira ao estalo. Como deixar escapulir uma mulher que curtia Peckinpah, o bom e velho Rainer Maria e ainda por cima, mucho looouca, se embebedava de bourbon? Comprei um broche de ametista, passei logo no florista. Mas Alicinha era foda. Sem achar algum núcleo fora de si mesma, foi atrás do próprio e, quando o encontrou, matou-se com um tiro no coração. Elis Regina também morreu naquele dia.
Almir Feijó é Publicitário especializado em Marketing Político, Jornalista, autor de 'Descríticas' (2001) e 'Descríticas - 316 filmes' (2005).
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