Comer é das melhores coisas da vida. Minha família não é das que demonstram afeto com abraços e beijos. Mas são craques na cozinha. E aí vem todo carinho, com muitos temperos e pratos calóricos. Não existem comemorações diets e lights. Tirando a ala diabética, tudo é tão doce a ponto de travar o maxilar. Faz tempo que observo, claro que calada, o comportamento. Identifiquei claramente os diferentes tipos que compõe a nossa mesa. Os gulosos comem rápido e quase com falta de ar. Os gordos, como eu se satisfazem no terceiro prato. Mas os que pensam como gordo tem técnicas variadas.
Fiquei de olho em um queijo ser virado de um lado para outro. Pequenas fatias sendo retiradas e comidas calmamente. Não aguentei de curiosidade e perguntei o que estava acontecendo. A resposta veio como se fosse uma condenação. – Você não está vendo que o queijo está torto? Cada uma. Que diferença faz o queijo ser guardado torto? E aí fica bem clara a diferença. Eu cortaria uma fatia bem grossa. Quem pensa como gordo, usa a criatividade para arranjar um motivo para comer. Oras o queijo tem que ser absolutamente reto.
Quando eu era criança, minha mãe fez um regime em São Paulo. Meus pais entraram em um taxi e ao dar o endereço, o motorista informou que a clínica era conhecida como Casa da Banha. Coitada. E daí passou a comer em um prato de sobremesa e usar um copo, creio eu, que de massa de tomate. Daqueles bem pequenos. O meu pai que tinha o humor, diria que dolorido, a observando arrumar a mesa, disse cinicamente: - Lá vem a Carmen com o ridículo e o absurdo. Ninguém entendeu e ele emendou: - É ridículo uma pessoa repetir cinco vezes um prato de sobremesa e um absurdo fazer caber um litro de refrigerante em um copo tão pequeno. E assim foram batizados. Pura maldade, ela emagreceu 16 quilos.
Quem pensa como gordo já vai à busca da sobremesa antes de sentar para comer. É preciso de cálculos precisos para fazer as escolhas. Se o que vem depois for muito bom, vale a pena cortar alguns itens. O que não pode de jeito nenhum é passar dias se culpando, porque não coube tudo. Quem apenas come como gordo, se satisfaz com o que está na sua visão, seu alcance.
As compras do supermercado também são diferentes. Eu trago sempre as mesmas coisas e só vario quando preciso fazer um prato especial. Já a outra categoria, conhece todas as novidades, param em frente às prateleiras, como hipnotizados. E comemoram quando encontram um lançamento. “Já tinha visto este biscoito em uma propaganda e comprei”. Só falta um grito de UHUH!
Bom mesmo é comer. Tento emagrecer constantemente e descobri que o problema não é só meu. Como dizia Karl, o Marx. A existência precede a essência; nenhum ser humano nasce pronto, mas o homem é, em sua essência, produto do meio em que vive... E neste quesito me dei mal.

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