Sílvio Tendler denuncía o desmantelamento da Orquestra Sinfônica Brasileira.
A Resistência da Arte
À Cecília Conde, essa guerreira
Aos quinze anos de idade, queria tocar algum instrumento para tentar arranjar namorada. Dançava mal, era desafinado (diria mesmo, desentonado) e não me entendia com o violão. Já havia tentado o piano, que exigia coordenação motora, o que não era meu forte. Na época, circulava entre nós a flauta doce. Uma santa alma tentou me ensinar. Era um amigo, que pertencia a uma família de músicos, o Ivan Sergio Nirenberg. Frequentei sua casa por meses em que ele, paciente -- e inutilmente -- se esforçava para me iniciar no universo da música. Logo vi que poderia ter mais sucesso frequentando cineclubes, conversando sobre filmes e sonhando fazê-los. O movimento estudantil me levou às ruas para protestar contra a ditadura enquanto o Ivan Sérgio, dedicadamente, continuava envolvido com instrumentos musicais.
Nunca mais nos perdemos, ainda que nossos encontros fossem sazonais. Mantínhamos amizade à distância. Recentemente, numa noite dessas, o Ivan Sergio me liga pedindo para assinar um manifesto de solidariedade com os músicos demitidos da nossa Sinfônica, a OSB. Solidário, assinei e começamos a conversar. O paciente professor de flauta doce estava revoltado com o que estavam fazendo com sua Sinfônica, na qual toca há 35 anos. O maestro queria obrigar os músicos a fazer uma prova despropositada. Os que se recusaram, dezenas de talentosos músicos, foram demitidos. A Sinfônica estava sendo desmantelada em nome da "excelência". A ideia era trazer músicos do exterior para ocupar o espaço dos nativos. Tentam quebrar uma orquestra de 70 anos!
Os músicos foram à luta para enfrentar os algozes da orquestra. Nos últimos tempos, tenho lutado contra o desmantelamento do cinema brasileiro em nome do "cinema de mercado". Me aproximei, então, da causa dos músicos e estou fazendo o que melhor sei; deixei a flauta doce de lado e peguei a câmera para me juntar a meus colegas-músicos, gravemente feridos por uma arte "de mercado", mais pautada pelas notas verdes do que pelas notas musicais.
Na universidade onde dou aulas há 31 anos, estava conversando com uma aluna, filha de um flautista que apoia seus colegas da Sinfônica e fui surpreendido pela agressividade de um colega que saiu em defesa do maestro, em defesa de "meritocracia", esculhambando o que ele chamou de "corporativismo" (a defesa da dignidade e do emprego, agora atende por esse palavrão, "corporativismo"). Um outro colega contou que, há alguns anos , o George Martin (arranjador dos Beatles) esteve no Brasil, regeu a Sinfônica e comentou com ele que "a orquestra não era boa".
Quinta-feira filmei o ensaio dos demitidos da orquestra e sábado, a apresentação e vi a paixão e o entusiasmo dos demitidos e de seus colegas de outras orquestras tocando sob a batuta do Maestro Osvaldo Colarusso e, em seguida, regidos e tocando com a pianista Cristina Ortiz. Me reanimei ao ver que gente de talento apoiava os músicos da Sinfônica.
Sábado foi a confirmação de que estava no bom caminho ao lado de nossos músicos e que meu colega de universidade tivera uma recaída do surto udenista que o acometera na juventude, sempre ao lado dos que queriam entregar o Brasil. E pensei que o colega que citou George Martin esqueceu de dizer que sua única obra de valor é a trilha de "Yellow Submarine", maravilha dos anos sessenta. De lá prá cá, fez muito pouco. Continua por aí, dando entrevistas e vivendo das glórias do passado. O que o maestro Martin não contou a meu colega de faculdade, meu amigo da Sinfônica relatou: a apresentação que deveria ter acontecido há mais de quinze anos, na Quinta da Boa Vista, foi cancelada por uma tempestade, que impediu a apresentação do maestro e da Orquestra.
Nossa Sinfônica está aí, de pé, emocionando uma sala hiper lotada da Escola Nacional de Música, onde se apresentou com a força de um leão ferido que luta pela sobrevivência.
Éramos centenas de pessoas emocionadas, aplaudindo músicos e músicas da melhor qualidade. Estavam lá Edu Lobo, Eduardo Dusek, Tim Rescala, Daniel Dantas, Beatriz Thielmann, Fernando Bicudo, o pianista Roberto Fuks entre tantos outros. Músicos da velha guarda da Orquestra também foram prestigiar os colegas. O maestro Edino Krieger e nada menos que o maestro Alceu Bocchino, que, do alto dos seus 92 anos, firme e forte, foi apoiar os músicos e sua Orquestra.
Ao lado deles e de outros maestros como John Neschling, Isaac Karabtschevsky, Nelson Nirenberg, além de músicos do exterior que apoiam os colegas brasileiros, não me senti nada só. Aos músicos demitidos da Sinfônica e, sobretudo, aos que lutam, meu emocionado obrigado, minha solidariedade total.
Domingo,1 de maio de 2011
Silvio Tendler
P.S. Hoje, domingo, 1º de maio, o Naipe de metais dos demitidos da OSB tocou no Complexo do Alemão, comemorando o dia do trabalhador.
Sílvio Tendler é historiador, cineasta e professor da PUC do Rio de Janeiro.
P.S. meu - Sílvio, sei que não tem mais o Valêncio Xavier em Curitiba. Mas estou aqui. Obrigada pelo lindo texto.

E incrivel,como a nossa cultura é mal tratada.Um pais sem cultura,é um pais aleijado.A OSB deveria ser prioridade na pasta do MINC(Coitado,com aquele orçamento).Somos um pais de grandes talentos nas artes,resta estabelecer uma politica de incentivo a eles.Silvio Tendler é um heroi...a ssim vai sobrevivendo a cultura do Brasil de Villa Lobos.
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