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| Desenho de Paloma Jorge Amado |
Há duas semanas contei um episódio triste que vivi há muitos anos com um político brasileiro. Graças a Claudia Wasilewski, que o publicou em seu blog, o texto correu o Brasil, foi republicado por outros blogs, por jornais e revistas. Recebi um numero imenso de mensagens de solidariedade, amizade e afeto. Pude ver o quanto os brasileiros estão cansados das humilhações que sofremos, os maltratos daqueles que elegemos e pagamos com nosso dinheiro suado, entregue ao país em impostos, muitas vezes incompreensíveis.
Vários comentários falavam do Jegue da festa do Bonfim. Comparei a ele a senhora do senador e muita gente não entendeu. Quero explicar, pois muitos sentiram pena do bichinho e um senhor, na contramão, me chamou de mal educada por comparar senhora tão fina com animal tão vulgar.
A festa do Senhor do Bonfim, realizada em janeiro, quando as baianas lavam as escadarias da igreja, é das mais tradicionais que temos. A festa é sincrética por excelência, onde catolicismo e candomblé estão juntos na homenagem ao Senhor, que é também Oxalá, o pai de todos.
Faz-se uma procissão da Rampa do Mercado até a Colina Sagrada, onde está o santuário. É tradicional a participação dos jegues, animais de primeira categoria, formidáveis, fortes e trabalhadores, puxando as carroças, pois muitos devotos não podem andar, outros não têm idade para fazer tantos quilômetros a pé, e muitos têm preguiça mesmo. Para a festa, o animal é enfeitado com flores, ganha chapéu, fitas, guirlandas. As carroças são cobertas com arcos de bambu, folhas de pitanga, uma lindeza. Com o grande afluxo dos turistas, a festa se desvirtuou muito, já é quase impossível fazer a caminhada, é gente demais em mês de tanto calor. Soube que este ano, por petição de umas ONGs de proteção aos animais, foi proibida a participação do jegue. Fiquei com pena, apesar de saber que a superpopulação machucava o animal. Eu, que sou politicamente incorreta, imaginava que se podia evitar que os turistas acompanhassem a procissão, salvaríamos assim não somente o jegue, as também os devotos que vão por fé e não por curiosidade. Me entristece ver como desfiguram a tradição. Preciso dizer que tenho pelo Jegue da festa do Bonfim o maior apreço, que se for melhor para ele, então que não saia mais.
Um dia presenciei o artista plástico baiano Calasans Neto sendo apresentado a uma dama da sociedade carioca. Ela estava ricamente vestida, cheia de jóias caras, colares pendurados, brincos, berliques e berloques, saltos altissimos, maquiagem carregada, ao contrário das bermudas e camisetas de todos os outros convidados da domingueira matinal, que meus pais faziam na Rua Alagoinhas. Calá olhou a senhora e ficou encantado: Que mulher mais linda, parece o Jegue da festa do Bonfim. A senhora riu muito, não se aborreceu, e nós ganhamos uma nova expressão.
Assim sendo, caros amigos, ao fazer a comparação, não quis dizer que a senhora era burra. Quis dizer que ela estava toda enfeitada, como se fosse para a mais bela das festas, num momento em que deveria estar confortável para passar muitas horas num avião. Não creio que o Jegue tenha se sentido ofendido com a comparação, creio que pior foi não poder festejar o nosso santo orixá.
Rio de Janeiro, 17 de maio de 2011
Paloma Jorge Amado

Adoro quando estas duas se encontram. Sempre sai coisa boa!
ResponderExcluirAdorei este jegue porreta, todo pilchado como diriam os irmãos gaúchos. Coisa-mais-linda!!
Lara
Realmente estas palavras são para quem não tem preconceito e tem um mínimo de cultura ou até mesmo um pouco de criatividade e imaginação.
ResponderExcluirParabéns.
Eduardo
Que texto delicioso. Não nega a herança bendita do pai. E a senhora em questão, deveria ficar é muito agradecida pela feliz comparação. Podia muito bem ser muito pior !!!
ResponderExcluirEstou gostando muito dessa nova dupla que está se formando vamos nos divertir ao que parece.A polvora envolta em seda.
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