sábado, 23 de abril de 2011

ESQUISITINHA

Minha mãe tentou engravidar por dez anos e nada. Com ajuda do Dr. Moysés Paciornik, conseguiu. Gravidez sem os pós brancos. Açúcar, sal, farinha. Estes pós. Depois de várias decepções deu certo. Nove meses e eu a caminho.
Sentiu uma dorzinha e meu pai a levou para a maternidade fazer exame. Ela ficou e ele faceiro foi para o Jockey. Grande Prêmio, o Denis correndo, cavalo super campeão.
Enquanto isto descobriram que eu estava atravessada. Não podia se diferente. Correria e cesárea.
Cavalo campeão, fotos, parabéns e saída estratégica para buscar a minha mãe da consulta. Chegando lá a enfermeira disse: -Parabéns, Seu Henrique.
Ele agradeceu e perguntou se ela tinha ouvido a corrida. Ela muito assustada contou: - O Sr. tem uma filha.
Eita bola fora. Ligou para o Jockey e pediu para avisarem meus irmãos e avós. Até hoje não sabe quem teve a brilhante ideia de anunciar no auto falante. E assim foram todos para a maternidade, família e amigos. Festa! A minha mãe tomou anestesia geral e ainda não tinha voltado à consciência. Quando acordou, eu já tinha nome, Maria Denise. Acho que ela preferia ter continuado anestesiada.
Susto, confusão, gentarada. A grande justificativa era que nasci exatamente no horário que o cavalo cruzou a linha de chegada. Criativos, no mínimo. Imagino o tamanho da encrenca até a escolha de Claudia. Mas não teve jeito, Claudia Denise. Que vergonha, eu servi para homenagear o cavalo.
Presente normal? Nada de brinco, pulseira. O Seu Aizental fez um alfinete em formato de rebenque, com boné, ferradura e estribo pendurados. Fui crescendo e os amigos do meu pai, poucos estão vivos, teimavam em me chamar de Denise, e eu ignorava. Fui uma celebridade instantânea nas revistas de turfe, bem mais que o cavalo. Pelo menos isto.
Não mamei leite de mãe, de vaca, em pó. Mamava caldo de carne, legumes, galinha. Não comia morango, mas ostra crua era um manjar. Cresci sendo chamada de esquisitinha.
Fui uma menina de joelhos ralados, maria chiquinha caída, suja. Nada disso esperavam de mim. Na escola polemizava, e ouvia: - Saia da sala.
Tive que narrar um jogo de futebol. Não sabia o nome dos jogadores. Peguei a Bíblia e montei dois times. Pecado mortal no colégio de freiras.
Fui uma adolescente feliz, me engajei política e ideologicamente. Me decepcionei. Mas continuo levando até as últimas consequências o que acredito.
Só eu sei o mico que estou pagando de contar estes segredos sórdidos. Mas é a minha vida. Não tem como mudar.
Uma das crônicas publicadas na minha estreia na Revista Ideias.

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