quarta-feira, 6 de outubro de 2010

PACTO CANALHA

Ouvi pela primeira vez a expressão no movimento estudantil. Paulo Pedron irritadíssimo dizia que existia um Pacto Canalha entre professores e estudantes. Professores não davam aulas e os estudantes não denunciavam. Ontem com a discussão sobre o aborto me lembrei.
Os governos, todos de todos os tempos, municipais, federais e estaduais, estabeleceram o mesmo Pacto Canalha em relação ao aborto. O aborto é crime e mulheres podem ser presas. As clínicas clandestinas quase na totalidade medievais, funcionam. Não são fiscalizadas, lógico senão fechariam. Os comitês de mortalidade materna tem um trabalho árduo e sério para investigação das mortes. Mas a pergunta que fica é o que precisa ser feito.
Ontem conversando com a minha mãe, que completa hoje 84 anos, me dizia: - A dor física do aborto é muito pior que a do parto. Ela vem de uma perda. No parto passa mais rápido porque vem de um ganho. Isto ela conhece bem por ter tido vários abortos espontâneos. Me disse ainda, que sofreu muito, mas pelo menos não carregou nenhum caixão branco nos braços. Entendam que esta é a opinião de quem já perdeu um filho adulto.
Quando trabalhei no Conselho Estadual da Condição Feminina, conheci uma clínica clandestina e passei dias sem dormir. Funcionava atrás de uma estofaria, entre pregos, grampos e um cheiro insuportável de cola. Suja, um horror. Isto acontece aos milhares e sem controle pelo simples fato de ser crime. E só foi descoberta depois que uma mulher morreu lá. Acompanhei outro caso de uma mulher vítima de estupro, depois de perigrinar pelo sistema público, não conseguindo o aborto estabelecido na lei, perfurou o próprio útero com duas agulhas de tricot. Morreu em uma tentativa desesperada de se livrar do filho de um estuprador, vindo da violência mais nojenta que as mulheres podem ser acometidas.
Eu não consigo imaginar uma mulher durante nove meses gerando uma criança sem cérebro. Seu corpo modificando, seus seios enchendo de leite, os instintos de proteção a flor da pele, com a consciência de que logo depois irá carregar o caixão branco. Não existe argumento entre o céu e a terra que me convença que isto é certo. E muito menos que não esteja na lei.
O aborto não deve ser usado como método contraceptivo, precisam avançar os programas de esclarecimento e planejamento familiar. Jamais aconselhei nenhuma amiga minha a abortar, mas fui junto em uma clínica chiquérrima. Podem se surpreender, mas neste caso, não opino. A decisão é da mulher e sobre a vida dela. Esta estória que é sobre o corpo me cheira a futilidade. Como se as mulheres, estivessem preocupadas com estrias e flacidez. Não, a decisão é SOBRE A VIDA. Tem que ser respeitada. E acredito que nenhuma mulher queira um sugador dentro do corpo, que não seja por absoluto desespero. Como sempre é muito mais fácil pegar as pedras, a maquininha de rotular, se investir de dono da verdade. Se submeter as religiões, que encaram qualquer coisa que dê prazer ou que faça evoluir como pecado. Contra a ciência, contra uma vida melhor, porque o rebanho não teria motivos para estar lá. Se realizam através dos vícios e da fraqueza humana, da miséria, dos seres invisíveis. Por favor estamos em que século mesmo?
Como podem reparar tenho opinião formada sobre o assunto. Ontem quando soube que o Partido dos Trabalhadores, que já existe a 30 anos, irá retirar do seu programa esta questão, fui tomada de uma decepção misturada com revolta. Não sou petista, nunca fui. Fui somente uma aliada no movimento estudantil, eleitora e tenho grandes amigos. Fui criticada, acusada de fazer o jogo da direita. Confesso que chorei. Não é possível usar a normatização do aborto legal, que diga-se de passagem, demorou 60 anos para ser feita, para acusar José Serra de abortista. O QUE É ISSO COMPANHEIROS??? Não me conformo. O problema não é ser contra o aborto. O problema é ser a favor e depois voltar atrás. Aliás tiveram meses acompanhados do homem que sempre disse: - Voltar atrás nunca mais.
Vamos elevar o nível, ampliar as discussões. O momento é agora. Usar a campanha para esclarecer e não para difundir o preconceito, a leviandade e o ódio. Chega de histeria coletiva.

2 comentários:

  1. e o maior problema é transformar uma questão de extrema importância para a mulher em primeiro lugar e seu companheiro que é exatamente legislar sobre o seu corpo, ampliar seus direitos individuais e ter a garantia que o poder público o defenda. Esse causuismos ( palavra fora da moda) seja do PT ou de outro partido que não tem a coragem de assumir quebrar tabus, discutir abertamente a questão do aborto como um direito. Então como fica PT no Brasil opta pela pequenez de conseguir votos de setores católicos e acertadamente no Irã critica a execução de uma mulher acusada de adulterio. Será que vale a pena ganhar a todo custo, muitas vezes a vitória acaba sendo uma derrota.

    ResponderExcluir
  2. valéria prochmann6 de outubro de 2010 22:44

    Mt bem Claudinha, parabéns pela coragem com q aborda um assunto tão polêmico e delicado. O Estado brasileiro é laico - não teocrático - portanto as ações do governo não podem ser pautadas por premissas religiosas. O país tem liberdade religiosa para q cada um possa professar a sua fé, respeitando tbm aqueles q não creem e/ou não professam qualquer religião. O assunto é de foro íntimo da mulher, cabendo ao Estado voltar-se aos aspectos da saúde pública. Se depender da maioria das religiões, tudo o q elas consideram pecado será transformado em crime, porém no Estado republicano laico, há clara divisão entre assuntos de ordem pública e os de ordem privada. É lamentável q o aborto se torne a pauta principal de uma eleição presidencial, considerando a amplitude das responsabilidades de um presidente da República.

    ResponderExcluir